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13 de julho de 2014

Postado por Monique | Marcadores: ,


Na interior da Cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul que quando isso aconteceu, uns cinqüenta, sessenta anos atrás, era “mais interior ainda” –, entre as regiões conhecidas como Faxina, Pimenta e Cantagalo (cujos limites não eram bem definidos, então), deu-se um caso muito intrigante.

Naquelas estradas rústicas onde veículos sobre rodas (fossem carros, caminhões ou mesmo carroças) pouco transitavam, o meio de locomoção do homem do campo para grandes distância era principalmente o cavalo.
Quem era de lá pouco saía da região: asfalto era coisa rara, e uma viagem para a cidade, se não fosse de carona com os caminhões que levavam a produção das pequenas propriedades, era coisa de um dia ou mais.
Os empregados das estâncias, chácaras e querências então, nos seus raros momentos de folga e socialização, iam para um bolicho* que lá havia, para beber, conversar e saber das notícias.

(*) Bolicho: estabelecimento comercial que é uma mistura de bar, armazém de secos e molhados, pequeno bazar, agropecuária... Ainda bastante comum no Sul do Brasil e no Uruguai, d’onde a palavra é originária.

Mas eis que neste lugar, n’um entardecer de domingo, os homens se reuniram para uma bebida e um carteado, um joguinho de pife, e d’entre eles dois se destacavam.
Uns vizinhos meus, guris naquela época, lembram deles, mas não tenho permissão para divulgar o nome de ninguém neste relato.

Ocorre que o primeiro destes dois homens era metido a não ter medo de nada, mas como era muito “gavola” (contador de vantagens), tinha certa fama de mentiroso quanto à sua coragem.
Mas também tinha fama de briguento, e por isso ninguém lhe duvidava na cara dos seus feitos e conquistas tão exagerados.
O outro era um legítimo “come-quieto”: sabiam de algumas de suas peripécias e, principalmente, casos amorosos, mas ele em si de nada falava ou se gabava, e sequer confirmava quando questionado, limitando-se a rir.

Era, e é, de se estranhar, mas ambos eram amigos.
Nesse dia o papo correu solto.
Tão solto que poucos notaram a noite chegar.
Bebida, noite quente e bonita, o jogo já cansando... Logo começaram as histórias, e histórias de assombração.

Todo mundo tinha pelo menos uma para compartilhar.
E, quem mais contava, era sem dúvida o Gavola.
Uma mais absurda (e heróica) que a outra, e o pessoal se segurando...
Mas eis que ele conta que, de certa feita, cavalgava numa noite de lua cheia e um lobisomem se bota nele, que brabo do susto puxou do relho e chicoteou o bicho “pra aprender a não assustar cavalo manso”, e o pessoal se segurando...

Quando então fez uma comparação do entre a sua imagem com o lobisomem e São Jorge com o Caído em forma de Dragão, afinal “a Lua ‘tava lá”, o pessoal não segurou mais e a risalhada foi geral.
Como era de se esperar, o Gavola ficou bravo, xingou, bateu na mesa e chutou banco, montou no cavalo e foi embora.
Claro que isso deixou um clima ruim no lugar, afinal todos ali eram amigos e, no fundo, queriam bem ao Gavola, que apesar de... gavola, era boa companhia e um homem trabalhador.

Eis que o Come-Quieto teve uma idéia: ia dar um susto no outro e, assim, talvez, esse perdesse um pouco da pose e não levasse tão por mal as brincadeiras da companheiragem.
Outros não arriscariam algo assim, mas ele era daqueles que se arriscava – até demais –, e arriscaria ter a raiva do amigo para não perder a oportunidade de fazer o que hoje chamamos “sacanear”.

A estrada por onde o Gavola seguiu fazia uma grande curva fechada, em “C”, e terminava em uma antiga porteira que se dizia mal-assombrada.
Cada um contava uma história diferente do lugar, mas todos concordavam que era um lugar sinistro e que, no mínimo, causava um grande mal-estar em quem por ali passasse, e por isso ninguém gostava de passar por ali, com aquela imensidão de campos e mato e ninguém por perto.
Principalmente sozinho. Principalmente à noite.

“Todo extremo esconde seu oposto”, dizem.
Se o Gavola gostava tanto de contar causos de coragem, principalmente frente ao “outro mundo”, é porquê algum medo ele tinha, pensava o Come-Quieto.
Ele, que não acreditava nessas coisas, idealizou o seguinte: cortaria caminho pelo mato que existia entre o “C” da estrada, seguindo uma linha reta entre o bolicho e a porteira e chegando lá antes do Gavola.
Então ele deitaria sobre a travessa da porteira, que era suficientemente larga, e quando o amigo se preparasse para apear (descer) do cavalo, que estaria parado naquele ponto, ele, de cima, lhe tiraria o chapéu, dando um susto.

Rindo depois de contar o plano aos outros, e sem tempo a perder, atravessou à estrada em frente ao bolicho e se embrenhou no mato.
Momentos depois, pela estrada, o Gavola chegava à porteira, apreensivo por estar naquele lugar, mas o cavalo estava calmo, e era crença (na época e ainda hoje) que os cavalos “sentem” coisas do outro mundo (e talvez sintam mesmo), e a calma do cavalo o acalmava, também.
Chegou em frente à velha porteira e, quando se preparava para descer do cavalo e abrir, alguma coisa tirou seu chapéu.
Ainda olhou em volta, mas o chapéu não havia caído, e sim sumido!

Uma risada perto demais, naquele lugar onde ele não via ninguém, foi o suficiente para ele fazer o cavalo voltar a todo galope pela estrada por onde tinham vindo.
Cruzou em frente ao bolicho e seguiu fugindo.
Aquela noite passou no galpão de uns amigos: não ia voltar a passar pela porteira.

Noutro dia foi até lá acompanhado de dois amigos, e foi um deles que encontrou seu chapéu sobre a travessa da porteira.
Voltaram e foi a história ser contada para o riso tomar conta do lugar: no fim, até o Gavola acabou por rir da peça que o Come-Quieto lhe pregou, e o riso teria continuado se dois fregueses habituais não tivessem entrado com expressões tristes e assustadas.
Uns disseram que foi algum marido traído, ou outro tipo de desafeto vingativo.
Outros disseram que foram bandidos, ou desses loucos que matam pessoas e ninguém descobre o real motivo (se é que há algum). Falaram até em coisas do outro mundo, embora tenha ficado muito claro que aquilo era “coisa com faca”.

No matagal que existia entre o bolicho e a porteira velha jazia morto o Come-Quieto, esfaqueado pelas costas enquanto ia fazer uma brincadeira com o amigo Gavola.

E fica para imaginação do leitor saber quem pegou o chapéu e riu do medo do cavaleiro, já que o Come-Quieto morreu antes de fazer a brincadeira planejada.

A porteira, até onde sei, está lá até hoje. A estrada mudou, mas ninguém a tirou de lá: apenas a deixam aberta, no meio do campo.

Pensei em ir até lá, tirar uma foto e colocar junto deste texto, mas não fui.

Quando tive oportunidade, eu teria de ir sozinho.

Carlos - Canela - Rio Grande do Sul - Brasil

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