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23 de maio de 2014

Postado por Monique | Marcadores: , , , ,
Hoje inauguramos uma nova série de posts quinzenais que abordará algumas personalidades do mundo sombrio. A primeira pessoa que trataremos será o celebre Edgar Allan Poe, autor cujo qual todo mundo já ouviu falar, mas acho incrivelmente bizarro o número de pessoas que o têm na lista de "livros a ler" e nada sabem do homem, sequer leram uma obra dele. Ele escrevia poemas e contos e cá entre nós, consegue pensar em algo mais curto e prático de ler do que isso (além de haikais¹)? Pois eis o motivo de eu sugerir que ignore a ordem de vossa lista de "livros a ler" e deguste de pelo menos um maldito conto do Poe agora mesmo, se de fato ele te interessa, pois em curtíssimas obras esse mestre expressa o horror em belas e reflexivas linhas de puro deleite. Não gosta de ler no computador? Pois está lendo agora, meu post, e os contos de Poe não são muito maiores que este post.


Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe (Boston, EUA, 19/01/1809 - Baltimore, 7/10/1849) foi um autor, editor e crítico literário bastante exigente, e o primeiro escritor americano conhecido a tentar se sustentar exclusivamente através da escrita, resultando em uma vida e carreira financeiramente difícil.
Segundo filho de David Poe e Elizabeth Arnold, ambos atores, Edgar Poe ficou órfão ainda criança e foi adotado por um casal rico de Richmond, Virgínia, Jonh Allan e Frances Kelling Allan. Isso lhe permitiu ter uma educação de qualidade, bem como fazer uma longa viagem pela Inglaterra, Escócia e Irlanda com os pais adotivos. Regressou aos Estados Unidos em 1822 e continuou seus estudos sob a orientação dos melhores professores da época. Dois anos depois, entrou para a Universidade de Charlotesville, distinguindo-se tanto pela inteligência quanto pelo temperamento inquieto, que posteriormente o levou a ser expulso da escola.
A seguir houve um período ainda pouco esclarecido na vida de Poe, no qual se registram viagens fora dos Estados Unidos.
Retornou a seu país em 1829 e manifestou desejo de seguir a carreira militar. Foi admitido na célebre Academia de West Point, mas acabou expulso poucos meses depois por indisciplina.
Com a morte da mãe adotiva, John Allan voltou a casar-se, com uma mulher muito jovem que lhe deu dois filhos. Isso impediu que Poe se tornasse herdeiro da fortuna paterna e ele se afastou da casa do pai adotivo, deixando Richmond. Após um período de relativa dificuldade, conheceu uma certa prosperidade ao vencer simultaneamente os concursos de conto e poesia promovidos pela revista Southern Literary Messager. O fundador da publicação, Thomas White, convidou-o a dirigir a revista que rapidamente se impôs ao público. Durante dois anos, Poe esteve a frente do periódico, onde pôde exibir seu talento que se manifestava num estilo novo, no conto e na poesia, bem como pelos artigos de crítica literária que revelavam seu rigor e sensibilidade estética.


Escritor bem-sucedido, Poe casou-se com Virginia Clemm. Entretanto, ao fim de dois anos, White cortou relações com o escritor, que já desenvolvera a doença do alcoolismo. Poe passou a produzir como "free-lancer", em grande quantidade, mas sem ganhar o suficiente para manter uma vida digna e saudável, o que o levou a afundar-se ainda mais na bebida.
A morte de sua mulher por conta da tuberculose agravou o problema. O escritor passou a beber cada vez mais e já sofria os primeiros ataques de delirium tremens (os sintomas incluem tremores, insônia, ansiedade e outros problemas físicos e mentais). Numa viagem a Nova York, para tratar de negócios, parou em Baltimore e hospedou-se numa taberna onde se distraiu durante horas bebendo. Era a noite de 6 de outubro de 1849. O escritor morreu na madrugada do dia 7, aos 40 anos.


Morte misteriosa

Cercada de mistério, sua causa ainda é muito discutida. Quatro dias antes de falecer, Poe foi encontrado nas ruas de Baltimore em um estado delirante. Não existem provas fiáveis sobre seu paradeiro até que, uma semana depois, em 3 de outubro, foi encontrado delirando nas ruas de Baltimore, em frente à Ryan's Tavern. Um impressor chamado Joseph W. Walker enviou uma carta para o Dr. Joseph E. Snodgrass, conhecido de Poe, pedindo ajuda:
Estimado senhor - Há um cavalheiro, muito mal vestido, no 4º distrito de Ryan, que se chama Edgar A. Poe e que aparenta estar muito angustiado e ele que ele é conhecido seu, e eu lhe asseguro, ele está necessitando de assistência imediata. Apressadamente, Jos. W. Walker2

Depois de ler a carta, Snodgrass se apressou em se dirigir à taverna, cruzando a cidade sob uma chuva torrencial. Posteriormente ele declarou que Poe se encontrava "em um estado de intoxicação bestial". Em sua declaração, Snodgrass descreveu o estado de Poe como "repulsivo", relatando que tinha seu cabelo despenteado, gasto, sua cara sem lavar e olhos "vazios e opacos". Sua roupa consistia em uma camisa suja sem terno e sapatos não lustrados, estava gasta, e não eram do seu tamanho. Snodgrass decidiu levá-lo ao hospital da Universidade Washington, onde foi atendido e tratado pelo médico de plantão, o Dr. John Joseph Moran. Moran dá uma descrição detalhada sobre a aparência de Poe naquele dia, que concorda com a dada por Snodgrass: "uma velha e manchada jaqueta, calças em um estado similar, um par de sapatos gastos com as solas gastas, e um velho chapéu de palha". Poe nunca esteve suficientemente coerente para explicar como chegara a se encontrar em situação tão desesperada, e se crê que as roupas que vestia não eram suas, especialmente porque ele não estava acostumado a usar vestimentas gastas.
Ao escritor foram negadas visitas e ele foi confinado em uma habitação similar a uma prisão, com janelas com barras em uma seção do edifício reservada para alcoólatras. Diz-se que, na sua agonia, Poe chamou repetidas vezes um tal "Reynolds" na noite antes de sua morte, mas ninguém foi capaz de identificar a pessoa à qual ele se referia.
As teorias sobre as causas da morte do escritor incluem suicídio, assassinato, cólera, raiva, sífilis e ter sido capturado por agentes eleitorais que o teriam forçado a beber para fazê-lo votar e abandonaram-no, já em estado de embriaguez, à sua sorte.
Suas últimas palavras foram: “Está tudo acabado”.


Funeral e enterro

Poe foi enterrado originalmente, sem lápide alguma, nas proximidades da parte de trás da igreja, perto de seu avô. Neilson Poe, primo de Edgar, havia comprado uma lápide de mármore italiano, mas ela foi destruída antes que chegasse à tumba quando um trem descarrilhou e se chocou contra o depósito onde ela estava guardada. Imagino que o autor teria rido da desgraça da situação, se estivesse vivo e radiante para tal, como em meados de 1836...
O funeral de ocorreu em 8 de outubro de 1849, numa segunda-feira, às quatro horas da tarde. Foi uma cerimônia simples à qual compareceram poucas pessoas, e inteira durou somente três minutos. A tarde era fria e úmida. O reverendo Clemm decidiu que não valia a pena pronunciar um sermão devido ao pouco público. Poe foi enterrado em um esquife barato a que faltavam alças. Tinha uma placa e era forrado com pano, com uma almofada para a sua cabeça.
Em 1873, o poeta do sul Paul Hamilton Hayne visitou a tumba e publicou um artigo descrevendo a sua pobre condição do "túmulo" (sim, botei entre aspas, mesmo!), sugerindo um monumento mais apropriado. Muitas pessoas de Baltimore e de todo os Estados Unidos contribuíram. O custo total do monumento, com o emblema, chegou a pouco mais de 1.500 dólares. O lugar original do enterro foi marcado com uma grande lápide doada por Orin C. Painter, mas originalmente, foi colocada em um lugar incorreto. E penso novamente que Poe teria rido...


O mistério das três rosas: Um fato interessantíssimo é que, por cerca de 60 anos, desde 1949, um desconhecido ia ao seu túmulo nesta data religiosamente todos os anos, deixando ali três rosas e uma garrafa de conhaque parcialmente cheia. Mas nos últimos anos o estranho parece ter desaparecido, e a tradição deve ter se perdido. Será que alguém irá retomá-la no futuro?

Obra geral

Suas histórias são repletas de terror e mistério no qual o sobrenatural e a loucura, misturam-se com a realidade através de delírios, doenças, assassinatos e suicídio. Pessoalmente é isso o que amo nesse grande mestre: a capacidade de mesclar a loucura com o paranormal, muitas vezes colocando uma linha tão tênua entre ambas as áreas que nos faz ponderar o que é ou não real, e ainda mais o que há de extraordinário no ordinário e vice-verso. 
As obras mais conhecidas de Poe são Góticas. Seus temas mais recorrentes lidam com questões da morte, incluindo sinais físicos dela, os efeitos da decomposição, interesses por pessoas enterradas vivas, a reanimação dos mortos e o luto. Muitas das suas obras são geralmente consideradas partes do gênero do romantismo sombrio, uma reação literária ao transcendentalismo.
Além do horror, Poe também escreveu sátiras e contos de humor. Para efeito cômico, abusava da ironia e a extravagância do ridículo, muitas vezes na tentativa de liberar o leitor da conformidade cultural. De fato, "Metzengerstein", a primeira história que Poe publicou (e sua primeira incursão em terror) foi originalmente concebida como uma paródia satirizando o gênero popular.
Sua escrita reflete suas teorias literárias, que ele apresentou em sua crítica: não gostava de didatilismo e alegoria, pois acreditava que os significados na literatura deveriam ser uma subcorrente sob a superfície. Trabalhos com significados óbvios, ele escreveu, deixam de ser arte. Acreditava que o trabalho de qualidade deveria ser breve e concentrar-se em um efeito específico e único. Para isso, acreditava que o escritor deveria calcular cuidadosamente todos sentimentos e ideias.


Influência mundial

Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe é considerado por muito o inventor do gênero ficção policial, como podemos claramente perceber ao ler Os assassinatos na Rua Morgue e A carta roubada - especula-se que o herói desses contos, C. Auguste Dupin, foi uma das grandes inspirações do britânico Arthur Conan Doyle ao criar o grande Sherlock Holmes, além de ter influenciado autores como Agatha Christie, G. K. Chesterton, Jorge Luis Borges, e muitosoutros.
Um espírito desequilibrado e uma alma atribulada fizeram Poe levar sempre uma vida de miséria e de desespero, mas senhor, ao mesmo tempo, da maior figura do romantismo americano e o mais universalmente conhecido dos seus escritores. Sua própria vida foi um desses romances vividos que fornecem alta matéria para os romancistas.
Sendo Poe uma importante figura do movimento romântico americano, é de prado encontrarmos na internet fanfics (histórias criadas por fãs baseadas nas já existente) escritas em inglês utilizando-se das obras do autor, pois na sétima ou oitava série (respectivamente 8th e 9th grade) as crianças geralmente têm como trabalho escolar criar obras baseadas em algum escritor nacional romântico. Pessoalmente também mergulhei no universo do terror com o amparo principalmente das obras de Poe, que lia ainda em infância e foi um fator decisivo na minha paixão pela coisa.
Sua obra e vida também foram inspiração para músicos e compositores. O sobrenatural de Poe fascinou compositores eruditos, Debussy compôs uma ópera baseada na Queda da Casa de Usher; Rachmaninoff, utilizou o poema Os Sinos e o transformou em uma sinfonia com coral de mesmo nome; Joseph Holbrooke que era obcecado pelas obras de Poe compôs um poema sinfônico baseado em O Corvo; e tantos outros. Na música popular, Poe também teve e tem uma grande influência. Bob Dylan, Don Dilworth, The Beatles, Lou Reed, Iron Maiden e outros milhares de músicos beberam desse néctar precioso.


A morte de Poe também foi objeto de uma série de obras, tanto fictícias quanto representações de sua biografia. Em 1915 foi lançado o filme The Raven, um cinebiografia retratando os delírios de Poe em seus últimos dias. Em 2002, o romance gráfico The Shadow of Edgar Allan Poe, relata as descobertas de Sterling Tuttle, um fictício entusiasta do autor, ao encontrar um diário que Poe teria escrito em seu leito de morte, detalhando encontros sobrenaturais. A partir daí, Tuttle começa a se questionar se o trabalho do escritor teria sido influenciado por perturbações sobrenaturais ao invés de mentais

Presentinho!

Se você teve coragem de ler este enorme texto e ainda está postergando a leitura de Poe, sugiro que deixe a preguiça de lado e leia ao menos um conto dele, pois convenhamos que meu post ficou maior que muitas obras do mestre! (risos) Na verdade eu pretendia realmente fazer um resumo modesto do Poe, mas obviamente é muito difícil falar de uma figura tão querida em poucas linhas. Poderia escrever uma bíblia sobre ele! Peço perdão pela extensão colossal desta biografia que deveria ser pequena, e como recompensa trago ao visitante o endereço do maravilhoso site Contos do Covil e Garganta da Serpente, onde você pode ler muito mais não apenas do Mr Edgar mas também de outros magníficos autores do extraordinário. Abaixo, dois contos com o intuito de introduzi-lo a este mórbido mundo Poeniano:

 
 
 

Documentário em vídeo

Como bem já disse, este post deveria ser pequeno. Sei que já me demorei o bastante para uma vida inteira, então me limito a deixar aos interessados um bom documentário de no máximo uma hora produzido pelo History Channel, dublado em português. O assisti há uns dois anos e confesso que não o re-vi quando cá o acoplei, mas se bem me lembro ele pode dar uma boa noção da vida e obra de Poe de modo geral.


Um comentário:

  1. Teve uma vez que eu tive que fazer a releitura do conto "O Gato" de Poe, na escola. Até então eu não o conhecia.
    Para quem gosta de contos de horror, Poe é uma boa opção.

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