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1 de setembro de 2013

Postado por Monique | Marcadores: ,

É de conhecimento amplo o inegável fato da clássica literatura infantil estar carregada de analogias e muita ambiguidade, pendendo as histórias para vias macabras. O intuito é supostamente bom, como no caso da Chapeuzinho Vermelho e seus diversos significados – o Lobo sendo um modo de representar os predadores na sociedade, etc – ou o Pedro e o Lobo – que enfatiza a importância de prezar a verdade.
As versões que tive conhecimento em minha infância eram todas narradas pelos irmãos Grimm, portanto confesso que me surpreendi mais quando cresci e percebi que era surpresa para muita gente que as irmãs de Cinderela multilavam os pés e perdiam os olhos, do que com o fato em si.
O cunho bizarro desses contos é um fato bastante popular. Temos diversos livros realmente bons e informativos escritos sobre o assunto, que descrevem, explicam e relacionam com os conhecimentos psicanalíticos histórias contadas para as crianças, a exemplo Contos do Divã, de Sylvia Loe (média R$28,00), e Fadas no Divã, de Diana e Mário Corso (média R$80,00).
Algo que ainda é muitas vezes ridicularizado, embora de cunho semelhante às estranhas histórias, é todo o teor igualmente estranho das canções infantis, cantigas de ninar, cantos de roda. Essas cantigas vem de um senso comum da população em geral, e da mesma forma que na literatura, o intuito é a educação através do medo empregado por metáforas.
Você já parou para examinar a fundo?

Boi da cara preta
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega esta criança que tem medo de careta
Não, não, não
Não o coitadinho
Ele está chorando, porque ele é bonitinho!

Atirei o pau no gato
Atirei o pau no gato tô tô
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu
Dona Chica cá
Admirou-se se
Do berro, do berro que o gato deu:
Miau!

Nana nenem
Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar
Desce gatinho
De cima do telhado
Pra ver se a criança
Dorme um sono sossegado

Pobre cego
Minha Mãe acorde, de tanto dormir
Venha ver o cego, Vida Minha, cantar e pedir
Se ele canta e pede, de-lhe pão e vinho
Mande o pobre cego, Vida Minha, seguir seu caminho
Não quero teu pão, nem também teu vinho
Quero só que a minha vida, Vida Minha, me ensine o caminho
Anda mais Aninha, mais um bocadinho,
Eu sou pobre cego, Vida Minha, não vejo o caminho

O passarinho prisioneiro
Num galho seco eu vi pousar um passarinho
Que a seus filhinhos ia cantar uma canção
E um vagabundo que andava sempre em festa
Correu depressa foi armar-lhe um alçapão.

O passarinho descuidado vem descendo
Para pegar aquele alpiste no alçapão
Vem descendo, coitadinho, tão contente
Eis, de repente, solta um grito na prisão.

O vagabundo solta então uma gargalhada
Apaixonado sem ter mesmo um pesar
E o pobrezinho passarinho prisioneiro
Em seu poleiro nunca mais torna a cantar.

Quando amanhece o passarinho muito aflito
Ouviu os gritos de seus filhos muito além
Quer fugir, mas as paredes o seguram
Ai, que amargura para um coração de mãe!

Vai-se batendo nas paredes como um louco
E pouco a pouco fica todo depenado
Quebra as asas, deixa o peito em ferida
Quase sem vida cai num canto ensangüentado.

Adeus filhinhos, minha vida pouco dura
Adeus floresta onde aprendi cantar
Aquele monstro que roubou minha alegria
Talvez um dia não torne mais a gargalhar.

Já quase morto diz ainda o passarinho:
"Vem assassino de meus filhos, me soltar,
Que Deus me deu a minha vida em floresta
E sempre, em festa, eu tinha um céu para voar!"

O vagabundo corre então abrir a porta
Mas ele está morto, já não pode mais voar
E o pobrezinho passarinho prisioneiro
Em seu poleiro nunca mais tornou a cantar.

O cravo e a rosa
O Cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada.
O Cravo ficou ferido
E a Rosa despedaçada.

O Cravo ficou doente
(A Rosa foi visitar).
O Cravo teve um desmaio,
(A Rosa pos-se a chorar).

Vem cá, Bitu
Vem cá, Bitu! vem cá, Bitu!
Vem cá, meu bem, vem cá!
Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá!
Tenho medo de apanhar!

A canoa virou
A canoa virou
Pois deixaram ela virar
Foi por causa de Maria
Que não soube remar
Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Eu tiraria Maria
Do fundo do mar
Siri pra cá,
Siri pra lá
Maria é bela
E quer casar.

E por aí vai. Todas são no mínimo estranhas, mas se bem me lembro, O cravo e a rosa e Atirei o pau no gato realmente  foram umas cantigas desgraçadas que me causavam intenso mal-estar toda vez que ouvia.
Quanto à análise, O cravo e a rosa certamente retrata uma briga doméstica, uma violência entre um casal que termina aos troços; não sei o que pode-se ensinar às crianças retratando esse cenário. Atirei o pau no gato idem; violência para um pobre animal, que não bastasse quase acabou morto, foi vítima de chacota da sádica Dona Chica, que admira-se ao grito do bichano. Qual é o bom fim que justifica esse meio parco que são as letras, em ambos os casos?
O passarinho prisioneiro não tem muito o que dizer sobre, e nem outra mensagem senão a clara de que passarinho que canta enjaulado não faz nada a não ser lamentar... Pobre cego, embora pareça bizarra, cruel, e cheia de preconceitos para com o pobre cego, me soa um tanto bonita. Na minha opinião, mostra uma forma de superação do mesmo para com os vínculos estabelecidos com gente que enxerga e essa falsa necessidade de o cego ser inferior, de precisar de apoio daqueles.
A canoa virou é no mínimo estranha, por botar à pobre Maria toda a culpa da canoa ter virado, e de provavelmente ter causado a própria morte. Porém, vejo que isso possa ser um meio de alertar os pequeninos a não apenas fazer as coisas direitos e apenas quando estão familiarizados com elas, mas também enfatizar que dificilmente outra pessoa há de livrá-los dos apuros causados pela sua própria tolice.
Vem cá Bitu basicamente diz "obedeça e cale a boca".  e Boi da cara preta, ambas igualmente bizarras, não me passam outra impressão além da de obrigar o pirralho a dormir e/ou obedecer. Obedeça seus responsáveis, ou graves consequências surgirão. Um jeito um tanto cruel de impor a soberania dos tutores...
A maioria leva ao mesmo sentimento:  vai obedecer quietinho, se não o bicho te pega! Você tem outra opinião acerca das cantigas? Compartilhe!

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