.

1 2 3 4 5

3 de agosto de 2015

Postado por Cianid Kolesnikov | Marcadores: ,
Matéria extraída do site Homo Literatus.
Fiquei curioso ao tomar conhecimento de um escritor que tem também a profissão de coveiro. Mais interessante ainda foi ele declarar que o ambiente do seu trabalho o inspira. Seu nome é Francisco Pinto de Campos Neto, o Tico, também conhecido como “Bukowski do Campo Limpo”. Bukowski dizia que não há nada a lamentar sobre a morte e sim sobre a vida que não se viveu ou sobre o tipo de vida que se viveu. Parece que ele estava certo, perdemos tempo demais buscando uma maneira de não desaparecer.

Quando a mãe de Francisco morreu em 2010 ele foi parar na rua e nas drogas; então viu um anúncio para ser Sepultador no Cemitério da Consolação. Conseguiu 10 reais para a inscrição, se preparou e passou. Lançou seu primeiro livro em 2006, uma coletânea de contos chamada Elas, etc., bancada por um amigo, que ninguém leu. Enquanto aguardava o resultado do concurso, através de um outro amigo conseguiu que uma agência de fomento à cultura publicasse 500 cópias do seu segundo livro, As Núpcias do Escorpião. Agora está indo para o terceiro livro. Francisco diz que não escreve no seu local de trabalho, mas enquanto caminha pelo lugar, tem ideias.

Lembrei que, em um cemitério, o que me chama a atenção não são os epitáfios, mas os nomes e as datas de nascimento e morte gravados nas placas. Nossa vida se encontra nesse breve lapso de tempo, nesse intervalo onde se forja a história desconhecida de cada um, daquilo que nos torna únicos. E me causa pesar aqueles interlúdios tão curtos entre o início e o fim, onde a vida abruptamente se interrompeu.


Francisco diz que tem muita coisa guardada desde os 14 anos; em 1980 chegou a passar em Letras na USP, mas não chegou a terminar o curso. Gosta de dizer que escreve, para citar Dostoievski, sobre os humilhados e os ofendidos, os miseráveis de modo geral, mas não fala só de grana: os miseráveis de criatividade, de afetividade, de tudo. Eis a miséria que não discrimina. Ele fala muito também sobre loucura, pois esteve 20 vezes internado por causa de drogas e diz ter ficado tanto em clínicas de classe média quanto em lugares horríveis onde tratam o interno como um animal, e quer mostrar o que viveu. Há mesmo “normalidades” assustadoras.

Francisco considera a profissão de coveiro como qualquer outra, e tem razão. Mas na cultura ocidental tudo que diz respeito à morte é cercado de um certo tabu. Nossa cultura aceita menos a morte do que a cultura oriental, onde a morte é encarada com mais naturalidade, como parte do mesmo ciclo da Vida. Lá até as crianças participam das cerimônias fúnebres, aqui aprendemos desde criança que a morte traz imenso sofrimento e até evitam contá-la para nós. Não falar sobre o que nos causa temor ou que não sabemos como lidar é uma maneira de fazer de conta que não acontece.

Em nossa sociedade contemporânea, onde a beleza, a juventude e a felicidade permanentes nunca foram tão cultuados, tudo que diz respeito ao fim como velhice, decrepitude e morte devem ser evitados. O fim deve ser cada vez mais asséptico, distante, impessoal. Por isso não me causou surpresa quando descobri a existência de velório virtual. Já podemos nos despedir de amigos e parentes sem a nossa presença, independente da distância. Como acontece com toda encenação social, os eventos que cercam a morte não deixam de ter seu caráter tragicômico.

Hoje, Francisco diz viver em um quartinho numa pensão, um lugar pequeno mas dele, e é lá que escreve. Se for possível tirar alguma conclusão sobre a morte, é que o fato de termos consciência do nosso fim é uma razão das mais fortes para apreciar a Vida.

“A cólica recrudesceu. Sentiu saudades da mãe. Pensou que não resistiria. Um casal passou por ele sobraçando sacolas de presente. Recordou-se da bola de capotão que havia ganhado num longíncuo Natal – presente do padrasto, pai de cinco dos seus irmãozinhos. Quantos gols, quantos dribles, no campinho da vila!”

Trecho extraído do conto “Jardim das Rosas – Estação da Luz (ou Largo Coração de Jesus)” do livro As Núpcias do Escorpião




Estou loucamente procurando por qualquer um dos livros dele para comprar. Se alguém souber de algo, imploro que deixe um comentário aqui no post ou me contate por Facebook.

Um comentário:

  1. Fascinante esta estoria e grande personalidade a dele pois notoriamente ele ama o que faz.

    ResponderExcluir

Escreva, monstrinho.