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22 de março de 2014

Postado por Monique | Marcadores: ,
Finalmente sábado. Depois de estudar e ralar mais que um cavalo de carroceiro durante a semana inteira, guardei este dia para escrever um hiper-post sobre algo que realmente amo: o filme O sétimo selo (Det sjunde inseglet), do sueco Ingmar Bergman.
Não trata-se propriamente de uma obra bizarra de terror, e antes que me preguntem porque caralhos estou falando dela no blog Brasil Bizarro, é porque ela carrega um teor bastante perturbador, enfatizando-nos nossa condição como meros humanos cheios de dúvidas e indagações defronte A misteriosa Morte e o fato de nos confortarmos tanto acreditando em Deus, imaginando sabemos de algo.


“E havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu quase por meia hora.” - Apocalipse (8:1)
Após dez anos, um cavaleiro (Max Von Sydow) retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca. 
Sinopse roubada do Interfilmes.
Hoje assisti ao filme pela quarta vez ao longo de três anos para estar com a memória fresca e poder resenhar a obra decentemente aqui no blog, e não posso deixar de enfatizar que a cada vez que me deleito com essa maravilha percebo novas nuances e me dou conta que trata-se de algo ainda melhor que supus ser da última vez que o vi.
Optei em falar por tópicos porque li em um site de dicas para Blogueiros que isso é muito bom para conduzir o leitor durante um texto longo, e convenhamos que O sétimo selo merece mais do que mil textos longos. Pois bem...


Detalhes técnicos
Acho até engraçado citar que a primeira vez que pus os olhos no Sétimo selo não entendi porra nenhuma e mesmo assim o filme me encantou. Por quê? Por n motivos estéticos, a começar pelo fato dos figurinos e cenários serem feios. Sempre que vi e li obras épicas, nunca deixei de notar como as moças são arrumadinhas, as tabernas limpinhas, tudo lindo. E o que mais me encanta na estética do Sétimo selo é o fato de tudo ser podre, sujo, cheio de lama, alguns caras terem dentes fodidos... Enfim, há um pleno comprometimento com a realidade.
Isso me lembra muito o livro Perfume de Patrick Süskind, onde em cada parágrafo sentimos o cheiro desgostoso de esterco e repolho podre das ruelas de Paris que permeava naquela época, e devo exaltar que esse choque com a realidade é delicioso. Outro aspecto que me fisgou logo de cara é o modo como cada personagem parece diferente uma da outra, todas muito bem construídas.
A trilha sonora me mata de amor, de modo que baixei-a em torrent. As atuações são fantásticas, os jogos de iluminação belíssimos, e acho que não vou mais ficar puxando o saco porque você provavelmente já percebeu que os detalhes técnicos são impecáveis.


Contexto histórico
Antes de mais nada, quero deixar uma nota sobre o contexto histórico do filme, que se passa durante as cruzadas, entre os séculos XI e XIII. As cruzadas basicamente foram um tiro no pé do sistema feudal já que os seus objetivos não foram alcançados; Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos, o cristianismo não foi reunificado e a crise feudal não foi sequer minimizada. O trinômio "guerra, peste e fome" marcou o século XIV. A guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra devastou grande parte da Europa ocidental, enquanto que a peste negra eliminou cerca de 1/3 da população européia. A destruição dos campos assolava plantações e rebanhos, e basicamente podemos dizer que o grande marco da época foi a fome e a morte.


O filme em si
No mundo medieval tudo era entendido através da religião (e ainda hoje, né, gente?), então o sentido da indagação do cavaleiro é questionar a religiosidade, incluindo o papel de Deus e do Diabo na vida humana. Todos os aspectos da religiosidade são questionados, porém nunca é dada nenhuma resposta sobre sua veracidade. Nem Deus nem o Diabo se manifestam para o cavaleiro, apenas a Morte, nossa única certeza.
Homens aparecem pregando, teatralizando e punindo em nome do sagrado. O cara que mais fala em nome de Deus é o ladrão que roubava jóias dos mortos e que encabeça a procissão de flagelados, e também foi quem convenceu o protagonista a partir para a cruzada, dez anos antes. Dessa forma, vemos como o sagrado é omisso; tanto Deus como o Diabo apenas existem na voz dos charlatães, em nome de uma igreja decadente - que não consegue explicar a peste - e como formas de opressão.
Sobre os personagens, impossível não gostar da maioria. Em especial o Antonius Blok, o cavaleiro protagonista. Quem aqui curte filmes mais antigos deve estar de saco cheio de progonistas nórdicos, atléticos e inteligentes, que sempre são uns babacas soberbos, mas o Blok é simplesmente a antítese da personalidade desse cara; um sujeito absolutamente agradável e que desperta profunda empatia (e até simpatia) no espectador.


Ele volta da Cruzada da Fé para encontrar sua terra em processo de devastação pela peste e morte. Quando ele mesmo se depara com a morte aceita-a como um visitante absolutamente esperado, mas propõe-lhe uma disputa de xadrez apenas para que possa ganhar tempo para indagar a si mesmo sobre o sentido da vida e da morte, estando Blok plenamente ciente de que não há quem vença a morte em jogo algum - há um trecho interessantíssimo em que isso fica subentendido, onde a Morte fisga uma preocupação no olhar de Blok e este diz, com ar de troça, "Você não deixa nada lhe escapar." e ela responde "Não. Não há quem ou o quê me escape."


Mas por que xadrez e não um duelo de espadas ou algo do tipo, já que o cara é um cavaleiro? Creio que o jogo de xadrez aparece como uma alegoria da busca de um entendimento da vida através da racionalidade.
A coisa mais óbvia na trama, e também uma das poucas coisas óbvias da vida, é que a morte não pode ser vencida, que as pessoas a temem ao passo que fingem a si mesmas acreditar em divindades como modo de conforto, mas na hora fatídica choram em desespero rezando a um Deus que parece sequer ouvi-las clamando para que Ele exista realmente e lhes conforte no juízo final.
Claro que resumir toda essa obra de Bergmann nessa parca conclusão seria um equívoco nojento, mas são tantos lindos detalhes e são eles tão pessoais que só vendo para entender. Cada cena é fantástica, desde a cena do confessionário à abertura com Dies Irae e ao impactante final.


Sei que grande parte dos meus leitores são jovens, assim como eu em meus ledos dezoito anos, e infelizmente muitos de nós temos preconceitos com filmes velhos, em preto e branco, desprovidos de efeitos especiais (cá entre nos, acho CGI uma bosta), com muitas metáforas e ambiguidade. Pensar demais cansa, né? (...) Não. Não cansa. O que cansa é correr uma maratona, pegar ônibus lotado, ficar estudando até tarde que nem um condenado, e até o que muitos consideram diversão como passar a noite inteira dançando numa balada ou dar um rolê na Paulista naquele lugar em que grande parte de nós, para termos acesso, temos que pegar transporte coletivo ou dirigir duas horas num trânsito insuportável.
Ficar sentado com a bunda num sofá super confortável com o seu gato macio e gostoso do lado, com a opção de pausar o filme para fumar um cigarro, fazer pipoca gostosa cheia de manteiga derretida e beber refrigerante enquanto se deleita com as lindas imagens e metáforas de Bergman não cansa, muito pelo contrário. Estamos falando de uma obra fantástica que incita nosso cérebro a trabalhar e se concentrar profundamente nos inúmeros significados ocultos da trama, de modo que esqueçamos complemente a droga da realidade das fatigantes rotinas mundanas que nos cercam. Afirmo convictamente que é um júbilo pensar em arte, em coisas que nos fogem da rotina mas ao mesmo tempo se entrelaçam perfeitamente com nosso âmago, com nossas condições como seres humanos. A obra complexa é uma fuga da trivialidade e um confronto com nosso self, e por isso, sem muitos spoiler, indico que desmarque o rolezinho e se entregue a uma dádiva como assistir ao Sétimo selo.

Tem saco para vê-lo online? Abaixo o link no Youtube, legendado em português.

7 comentários:

  1. Faltou isso:

    https://www.youtube.com/watch?v=YknL-BWzSwY

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  2. Aliás, ótimo post. Ótimo filme.

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    1. Rafinha, minha flor! Obrigado. Você sempre com seu bom gosto...

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  3. Definitivamente um otimo post para um ótimo filme, gostei especialmente do final!

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  4. Do final moralista do post ou do final do filme? Amo o final, quando a morte leva todas naquela fila e o casal divaga ironicamente acerca da "visão" do cara. Tapa na cara.

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  5. Gostei do Post, me incentivou a ver o filme!

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