Duvido que alguém com inclinações ao sobrenatural, tais como os leitores do Brasil Bizarro, não tenham jamais ponderado aprofundar estudos em filosofias controversas tais como o Satanismo ou Thelema, ou mesmo estudos em vertentes do Ocultismo. Aposto que todo mundo aqui já pensou, mesmo que superficialmente, no caso.
Não sou Satanista, confesso que acho uma filosofia realmente babaca, mas com uns treze ou quatorze anos, confesso que tinha uma queda exasperada pelo Satanismo Moderno. Acho que crescemos e aprendemos, e hoje acho o Satanismo Moderno (e mesmo os cultos ancestrais destinados ao literal arquétipo de Satanás) algo muito infantil e banal...
Mas não sou à favor de jogar a gente realmente à iniciante - mas com potencial curiosidade pelo Oculto - livros de Hermetismo ou Goetia, pois estes são muito complicados e requerem uma desvinculação maior com o pensamento conformista de nossa sociedade alienada e, acima de tudo, capacidade espiritual e intelectual não apenas para entender, mas para lidar com tais vertentes de Ocultismo.
Novamente enfatizando, não indico que os curiosos se joguem de cara no Thelema, Goetia, Hermestismo, etc, pois há duas possibilidades para os iniciantes que o fizerem: ou virar cético e ignorantepelo resto da vida porque a amarração da galinha preta com farofa não funcionou, ou o bagulho funcionar mesmo e o cidadão se foder por não estar apeto a lidar com tais forças!
Pois bem, começamos a escrever e a ler aprendendo o alfabeto... Para fugir da alienação, portanto, indico o Satanismo Moderno pelo menos como trilha inicial.
Um leitor desavisado pode me olhar com o cenho franzido e dizer, caralho, mas tu diz que Satanismo é trilha para iniciantes, e não Angeologia? Mexer com capiroto é mais seguro que com anjos? Se joga na Goetia logo, porra!Angeologia, tal como Goetia, Hermetismo, Thelema, etc, requerem uma dose bastante apurada de desvinculação para com as normas sociais contemporâneas e, acima de tudo, familiaridade e potencial crença em magia - coisas que o Satanismo Moderno, se bem aproveitado, podem proporcionar.
Há gente que diz que o Satanismo Moderno é um nome "trevoso" para o Ateísmo, mas estando eu de mãos dadas com o Ateísmo na época em que passei a flertar com o Satanismo, digo que não; o Satanismo é uma forma sutil de se desvincular do ateísmo (no meu caso) e, em outros casos, do Cristianismo, Catolicismo e outras ideologias da Massa. (...) O que pode ser difícil é vencer o preconceito que o nome proporciona!
Que tal dar uma lida neste texto sem pudores, jogando aos ares tudo o que te disseram de SATÃ ao longo de sua vida entrevada?
Antes de mais nada, tire esse povo da sua cabeça quando ouvir falar em Satanismo:
Tenha como base os seguintes pontos
• A Lei do Talião é a maior das leis. Bondade àqueles que a merecem, em vez de amor desperdiçado aos ingratos.
• Viver intensamente, sem culpa ou pecado. E não se restrinja por convenções, moral ou imposições. Satã representa indulgência, em vez de abstinência.
• Satã representa vingança, em vez de virar a outra face.
• Satã representa responsabilidade para o responsável, em vez de relacionamentos com vampiros psíquicos!
• Satã representa todos os assim chamados pecados, pois eles levam a uma gratificação física, mental e emocional.
• Todas as relações humanas são baseadas em interesses. Não existem amigos: existem concorrentes ou aliados. Isso não é usar as pessoas, mas conviver em sociedade. Tudo é troca.
• O corpo é um altar. A mente é o trono. Auto-valor é indispensável!
Breve explicação sobre a ideologia do Satanismo Moderno
Ame quem te ame, e odeie quem te odeie.
É viável citar o clichê: Se alguém lhe der um tapa na cara, revide.
De onde vem a palavra Satã?
Satã vem do hebraico e significa adversário. O nome foi utilizado porque o arquétipo histórico e cultural de Satã representa o rival do cristianismo - enfatizando que não como algo mau, mas somente algo que se opõem completamente a tal.
Particularmente acho a atitude de Lavey em denominar a religião como Satanismo um ato esdrúxulo e desnecessário, pois embora há um belíssimo significado por trás da palavra relacionada à oposição e tudo mais, é inegável dizer que essa escolha é uma jogada sensacionalista; o medo atrai ou repele de imediado as pessoas, e uma religião com nome do personagem mau da bíblia, relevando o significado metafórico da palavra, é tanto atraente como repugnante.
O nome Satanismo obviamente gera muita confusão com o Sabbath das feiticeiras, Magia Negra, e tantos outros cultos ancestrais destinados ao literal arquétipo de Satanás executados na antiguidade. É importante frisar que o Satanismo Moderno não tem relação com nenhum desses cultos.
De onde saiu o Satanismo Moderno, e por que moderno?
O Satanismo Moderno nasceu com a publicação de A Bíblia Satânica e com a consecutiva formação da Church of Satan, ambos feitos de Anton Szandor Lavey em 1969. Toda manifestação anterior ligada ao nome Satanismo é referência às religiões cristãs e não englobam a dita cuja oficializada religião Satânica. Tal como dito no último parágrafo da fornecida à resposta anterior, o Satanismo Moderno não tem relação com Magia Negra, Sabbath das feiticeiras ou qualquer outro culto destinado ao literal arquétipo Cristão de Satanás.
Comm a criação da Igreja de Satã e posteriormente com a publicação em 1969 da Bíblia Satânica LaVey organizou uma crença que tem como figura máxima o indivíduo e não alguma deitade exteriorizada. No Satanismo moderno a forma máxima a ser aspirada é o próprio ser humano, com todas as suas forças e fraquezas, perfeições e falhas.
Quem afinal é o deus do Satanismo?
Você.
O Satanismo engloba o ser humano como a entidade máxima, e o discípulo centraliza a vida toda nisso - no desenvolvimento desi mesmo.
O único ser idolatrado no Satanismo é o próprio indivíduo. Eis a entidade máxima da religião, o único que deve ser venerado. O indivíduo é a personificação concreta de Satã. Satanismo é culto a Satã, ou seja, a si mesmo. Todo ato satânico é feito visando desenvolvimento mental, espiritual, físico, ou qualquer coisa que possa vir a satisfazer o indivíduo.
Desse modo, os demônios citados na Bíblia Satânica são todos arquétipos para denominar energias e forças internas. Da mesma forma que Satã somos nós, os chamados demônios são a personificação de outras coisas. Lúcifer, por exemplo, é o condutor da luz, espírito do ar, a personificação da iluminação espiritual. Logo, ao fazermos um ritual para Lúcifer, o fazemos para a iluminação espiritual.
Alguma promessa transcendental? Rituais? Magia?
Ao contrário da maioria das religiões, além de abolir a crença em entidades exteriores, o satanista não flerta com promessas relacionadas ao que vem depois da morte, principalmente porque ele não se preocupa com questões desse tipo - sua única meta é viver, viver aqui e agora, da melhor forma possível, desfrutar de bens materiais e dos prazeres oferecidos à carne à mente.
Sua única certeza é a vida, e é para ela que eles estão aqui, sem se preocupar com um julgamento final e sem temer o desconhecido. Não deixam de viver por alguma forma de temor posterior à vida.
Não há sacrifício de bebês, animais, virgens, nem nada semelhante. Sacrifícios nessa religião não existem. A vida é o bem mais precioso do homem e a única coisa que um Satanista jamais pode fazer é acabar com a vida de outra pessoa, já que eles prezam, acima de tudo, a vida sua e dos outros.
Há rituais e algumas rezas simples de pouco cunho místico, em sua maioria destinados ao aperfeiçoamento do caráter do discípulo. Algumas pessoas os praticam de modo absolutamente cético, atribuindo os resultados dos empreendimentos à psicologia humana, sem qualquer cunho mágico, simplesmente trabalhando com alavancagem das rezas e rituais.
Há também outros indivíduos que acreditam em alguma força mística, escondida por vidas medíocres sem a prática satânica. Estes creem que o Satanismo, com suas meditações e rituais, é uma forma de trazer à tona essa força e tornar a vida moldável às suas mãos.
Portanto, o Satanismo Moderno acopla tanto indivíduos extremamente céticos, quanto alguns com inclinações ao misticismo.
Resumindo...
O Satanismo Moderno é a filosofia que prega que o homem é o único Deus real e a prática religiosa que visa o constante desenvolvimento do indivíduo para que ele consiga chegar ao status de divindade, isso através de exercícios e práticas que visam o autoconhecimento e o desenvolvimento do Ego Satânico, é somente reconhecendo as próprias limitações que podemos ultrapassá-las, a única forma de nos tornarmos fortes é em primeiro lugar reconhecendo e identificando nossas próprias fraquezas. Nos rituais mágicos o Satanista busca a imposição de sua própria vontade na realidade que o cerca, mas sabe que apenas a magia não é suficiente a ação também é necessária para que se consiga aquilo que se deseja.
Outra crença muito forte é a na importância de viver o momento. "Não existe um paraíso de glorioso esplendor ou um inferno onde os pecadores queimam. Aqui e agora é o nosso tormento! Aqui e agora é o nosso momento de alegria! Aqui e agora é a nossa oportunidade! Escolha então este dia, esta hora, pois nenhum salvador viveu!". Isso não significa uma vida baseada apenas em seguir o desejo do momento e uma constante preocupação em estar sempre vivendo o momento, sem desperdiçar um segundo, esta crença apenas aponta que qualquer plano para o futuro começa na ação aqui e agora, não adianta esperar, as coisas apenas acontecem quando você as faz acontecer, o passado deveria servir de combustível para o presente e não como uma âncora que te prende em lembranças e sentimentos.
Se aprofunde nessa bagaça!
Não falo muito de religião aqui no blog, nem da minha própria, muito menos da dos outros... Enfatizando que minha fase sinistrae parou aos meus quatorze anos. Como disse no começo do texto, indico muito o aprofundamento do Satanismo Moderno ao pessoal pouco familiarizado com o Ocultismo e que quer se livrar das rédeas conformistas.
Enfim, fica aqui uma listinha legal de sites sobre Satanismo Moderno:
Grilos cantavam na noite quando me sentei na varanda e os ouvi discutir de novo...
"Não podemos permitir que você gaste desse jeito!"
"Foi apenas uma noite com os meus amigos! Você está tentando colocar a culpa da nossa ruína financeira em mim?!"
Eu suspirei e escondi meu rosto em minhas mãos. Odiava quando meus pais brigavam, e hoje não era uma noite em que eu pretendia permanecer sentado, ouvindo.
Chutei cada pedra em meu caminho, enquanto velozmente descia a calçada, rumo a uma caminhada incerta pelo bairro. Eu até relaxei um pouco depois que a casa sumiu de vista, mas a depressão surgiu e me tragava a cada passo.
Minha casa não era mais um lugar agradável, não era mais um lar... Eu tinha que fugir, tinha que sair de perto dos meus pais que faziam questão de brigar todo maldito dia por causa de dinheiro... Mesmo que eles nunca dirigiram a palavra especificamente a mim, me sentia ameaçado e violado naquele ambiente de guerra.
Estava pensando nisso tudo quando de repente minha mente voltou à realidade.
Minha pele se arrepiou abruptamente. O mundo ao meu redor ficou em silêncio; mesmo os grilos pararam de cantar.
Sem saber o motivo dessas estranhas sensações, comecei a andar mais rápido.
Então, meus ouvidos captaram o distinto som de passos - passos além dos meus. Fiquei estático e girei a cabeça, procurando uma fonte para esses passos por entre a escuridão.
Não havia nada lá, nem um gato de rua sequer.
"Não é nada", sussurrei em meio ao silêncio. "É apenas a minha imaginação."
Mais aliviado, me preparava para voltar à minha caminhada, porém, quando me virei e olhei para a frente, segurei um grito na garganta: um menino estava a menos de um metro de mim, com a mão estendida. Havia uma expressão estranha no rosto dele - não um sorriso, nem uma carranca; apenas uma cara um tanto quanto vazia, meio triste...
"Eu sou Jason Paige", disse ele.
Consegui deixar escapar o meu nome, enquanto gaguejava, "Como é que você veio parar na minha fren-"
"Podemos caminhar?" Ele me interrompeu, e fez um gesto em direção às ruas.
Atordoado demais para fazer qualquer outra coisa, eu apenas concordei com a cabeça e nos adensamos mais nas ruas do meu bairro, e se bem me lembro, visitamos até bairros vizinhos, visto que passamos um bom tempo na companhia um do outro.
Enquanto conversávamos, eu perdi meu medo e percebi que estava adorando conversar conversar com ele. Horas se passaram; entramos no próximo bairro, e eu quase não notei... Não até que olhei para o meu relógio, que marcava 02:00am. "Droga! Está muito tarde. Eu tenho que ir para casa, Jason!"
"Eu vou levá-lo até lá", disse ele.
Ficamos em silêncio na volta, até chegar ao fim do caminho e pararmos na porta da minha casa.
Quando tentei perguntar-lhe se ele estava em alguma rede social ou se poderia me dizer onde morava para mantermos contato, ele me interrompeu com uma tosse, olhou-me profundamente nos olhos e disse, firmemente: "Nunca ande sozinho à noite."
Eu pisquei para ele, confuso, mas ele já estava indo embora.
Eu abri minha boca para chamá-lo de volta, mas a voz de minha mãe me interrompeu:
"...Onde você se meteu?! Você viu que horas são?!"
Eu murmurei simplesmente que saí para dar uma volta, me esgueirei até as escadas e me atirei na cama, onde levei mais de uma hora para adormecer. Fiquei pensando em como eu era um esquisito solitário, vítima de bully na escola, que mal aguentava ficar dentro de casa devido às brigas familiares constantes, sem nenhuma única pessoa para conversar... E em como Jason foi a coisa mais próxima de um amigo que eu já tive e que provavelmente nunca mais o veria, já que ele não me passou nenhuma forma de contato.
Na manhã seguinte me sentei à mesa para tomar café da manhã junto com meus pais, arrastando ruidosamente minha cadeira no chão a fim de encarar uma tigela cheia de cereal empapado.
Meu pai balançou a jornal, franzindo a testa:
"Você conhece um tal de Jason Paige? Ele tinha a sua idade. Viveu num bairro aqui perto."
Minha colher congelou a meio caminho de minha boca, e um calafrio correu em minha espinha.
"Ele foi assassinado na noite passada", meu pai continuou. Sua carranca se aprofundou. "Alguns bullies ao longo da rua YM. Cerca de 10:30, diz aqui."
"E você saindo sozinho para dar voltinhas de madrugada!" Minha mãe ralhou.
Ignorei e encarei meu cereal para esconder minhas lágrimas...
Mal sabia ela que estive muito bem acompanhado na noite passada.
Traduzi a Creepy de um aplicativo que arranjei por aí chamado Ghost Stories, da adorável Historia LLC. Você pode baixá-lo para seu Android clicando aqui.
Eu adoraria fazer um post indicando a Historia LLC aos outros aficionados por terror que, como eu, têm que encarar ônibus insuportáveis todos os dias e precisam se distrair com leituras curtas e decentes, mas a Historia LLC só oferece aplicativos em inglês, de modo que seria um post um tanto quanto "exclusivista"... Portanto, me limito à creditar a Historia LLC ao final desta e de outras traduções que pretendo fazer de algumas das excelentes histórias acopladas no Ghost Stories.
Não é de hoje que sinto o desejo de tentar mostrar ao mundo a perfeição em forma de jogo que é Silent Hill, que tenho vontade de escrever milhares de palavras com o intuito de tentar abrir os olhos alheios para a terrificante e sucinta verdade por trás dos monstros e clima bizarro que não apenas compõem um fantástico jogo de terror, mas uma das mais belas e ricas obras da qual tenho conhecimento.
Sobre a produção
Silent Hill (サイレントヒル) é uma série que compreende oito jogos principais que não seguem uma cronologia fixa, jogos paralelos, dois filmes e quatro livros. No post de hoje falaremos especificamente do primeiro jogo.
Team Silent foi o nome da equipe que era responsável por desenvolver os jogos da série Silent Hill, publicados pela Konami, com exceção de Origins e Homecoming.
Infelizmente os membros da Team Silent estão atualmente trabalhando em projetos separados, embora não tenham se separado oficialmente. Alguns dos integrantes da Team Silent foram para a Team Siren, equipe produtora da série Siren, da Sony. O único remanescente na série atualmente é o louvável Akira Yamaoka, produtor do quarto jogo e compositor da maior parte da trilha sonora.
A saída da Team Silent é um bom motivo para eu detestar os jogos novos que levam o nome Silent Hill. Até pouco tempo atrás não sabia que não era deles a autoria dos novos jogos, mas os detestei assim que dei play, e não me surpreendi nem um pouquinho quando descobri a triste notícia. Aliás, parece que nem o Yamaoka mais estão deixando fazer as músicas...
Informações técnicas
Jogos - Silent Hill (1999), Silent Hill 2 (2001), Silent Hill 3 (2003), Silent Hill 4: The Room (2004), Silent Hill: Origins (2007), Silent Hill: Homecoming (2008), Silent Hill: Shattered Memories (2010), Silent Hill: Downpour (2012)
Livros - Lost Memories, Drawing Block: Silent Hill 3 Program, Silent Hill
Romances - Silent Hill: Play Novel, Art of Silent Hill, Lost Memories: The Art and Music of Silent Hill, Inescapable rain in Yoshiwara, Silent Hill Experience, The Silent Hill: Cage of Cradle, Silent Hill: The Arcade, Silent Hill: Double Under Dusk, Silent Hill: The Escape, Silent Hill: Mobile/Orphan, Silent Hill Mobile 2/Orphan 2
Quadrinhos - Silent Hill
Filmes - Silent Hill, Silent Hill: Revelation 3D
A genialidade da série
Confesso que agora que finalmente tomei vergonha na face para tentar cumprir esse meu desejo, visando que agora tenho um blog de horror e tenho todos os pretextos necessários para falar de Silent Hill, não encontro palavras para tal. (...) Escrevo enquanto ouço a trilha sonora e sugiro que façam o mesmo clicando aqui para ouvir a playlist, se quiserem experimentar o clima melancólico no qual me encontro. Acontece que é um desejo tão antigo e íntimo que não pensava realmente concretizá-lo, e agora que estou o fazendo, mal sei por onde começar.
Vou, antes de mais nada, levar ao conhecimento do leitor o fato de eu e meu irmão sermos viciados em Silent Hill 1 por volta dos nossos seis ou sete anos. Era bem engraçada nossa situação; tinhámos pavor de jogar após escurecer e jogávamos apenas até umas seis da tarde, nos limitando a joguinhos mais brandos (Soul Reaver, MediEvil, Jersey Devil, falarei deles em outro post da Seção Nostalgia) após o sol se pôr.
O tempo passou e veio o Orkut, e com ele a comunidade Contos de Silent Hill. O pessoal postava contos realmente bizonhos (pretendo selecionar e trazer um bom para cá antes do Orkut sair do ar), e aí eu e meu irmão começamos a perceber que Silent Hill era mais do que um negócio sinistro que destroçava nossas noites com memórias perturbadoras... Crescíamos, jogávamos agora o 2, 3 e 4 do Playstation 2, e conforme amadureciámos tornava-se evidente que em algum lugar deveria haver uma história por trás de tudo aquilo.
Finalmente descobrimos o livro Lost Memories (download aqui) por volta de 2006, e tudo ficou claro. Ou na medida do possível, já que estamos falando de Silent Hill...
Na minha opinião Silent Hill é a série de jogos de horror mais bem feita de todos os tempos. Não digo isso por possuir fortes vínculos emocionais com os jogos que basicamente construíram minha infância., mas sim por uma série de fatores a incluir desde a excepcional trilha sonora composta pelo genial Akira Yamaoka (cantada por Mary Elizabeth McGlynn e Joe Romersa) à fantástica e fascinante história que é uma das mais complexas e incríveis que já vi.
Um fator interessante a ser ressaltado é o fato da obra juntar profissionalmente elementos das mais variadas gamas de modo extremamente fiel - elementos tais que frequentemente passam despercebidos ou são tidos levianamente como ficção, mas na realidade são frutos de estudos muito profundos, como por exemplo as figuras de evocação e nomes de Demônios que realmente são fidedignos à Magia ocidental.
É algo de tamanha profundidade em seus detalhes que chega a ser cansativo para quem gosta de Hollywood não gosta de absorver muita informação ou refletir muito sobre o que está vendo. De acordo com a teoria do livro Lost Memories, cada aberração, vulto, cenário, e o que mais estiver representado na tela serve como metáfora intimamente ligada à história. Tudo tem um sentido, motivo para ali estar, e verdade por trás de sua aparência. (...) Perdoe a interrupção, mas isso me lembra um pouco Mononoke, que é um dos únicos animes na face da Terra que conseguiu me fisgar. Digamos que aprecio de maneira quase patológica esse lance de motivos e figuras de linguagem, e Silent Hill é recheado delas.
Tal como eu citei a fiel representação dos simbolos da Magia Ociental, ressalto que a trama é criada tendo várias inspirações em filmes, livros e séries de horror. Há também alguma base em teorias de parapsicologia e filosofia (na minha humilde opinião Niilismo corre solto lá!). Podemos encontrar várias sacadas geniais andando pela cidade que fazem qualquer pessoa mais culta sorrir; as ruas da cidade levam nomes de autores ou figuras relacionadas ao horror, cientistas e filósofos (Mary Shelley, Clive Barker, Stanley Kubrick, Nathaniel Hawthorne, Carl Sagan, veja mais aqui), o apartamento 213 de Andy como uma claríssima referência ao 213 de Jeffrey Dahmer, além de muito mais coisas que você poderá descobrir prestando bastante atenção aos detalhes, lendo o livro Lost Memories e também relacionando obras que inspiraram as séries. No meu caso fiz e continuamente faço tudo isso, mas sempre acho que há muitas outras coisas que ainda não percebi, já que Silent Hill parece uma imensa teia de aranha que te envolve e nunca mais acaba...
Considera-se que o pensamento humano tem uma certa energia psíquica que é forte de acordo com o poder do pensamento. Essa energia é capaz de se manifestar no ambiente em volta da pessoa, em geral, ou em outras pessoas, em particular.
Uma experiência feita por Masaru Emoto, apesar de não comprovada cientificamente, mostra que cristais de água pura tinham estruturas que se apresentavam diferentemente de acordo com o pensamento a que era submetida. A forma dos cristais era bela ou feia, dependendo se o pensamento era positivo ou negativo, respectivamente. Em outras palavras, as consequências da atividade psíquica de uma pessoa não são limitadas apenas a si, podendo haver efeitos externos. Essa força psíquica pode ser acumulada num ambiente e alterá-lo psicologicamente de acordo com o caráter do pensamento.
Baseado nisso, criaram o "mundo alternativo" ou "das sombras" dos jogos. Esses mundos são reflexos dos pensamentos e emoções do personagem ou personagens em questão no jogo. Além do "mundo alternativo" os monstros também são reflexos do estado emocional dos protagonistas.
O "outro mundo" que os protagonistas encontram (com as paredes pulsando e criaturas a espreita), pode ser entendida como sendo manifestações físicas da escuridão das mentes deles, de outros personagens e de pessoas há muito tempo mortas. Simplificando, a cidade pode possivelmente estar na mente dessas pessoas.
Desde cedo amaldiçoada...
Antes da chegada dos colonizadores ingleses a área era um lugar sagrado, onde os nativos indígenas americanos conduziam rituais religiosos e referenciavam o lugar como "o local dos espíritos silenciados" - possivelmente o que geraria o nome Silent Hill (Colina Silenciosa) séculos mais tarde.
Só em meados de 1607 os colonos ocupariam o território de Silent Hill, mas aproximadamente cem anos depois acontece uma terrível epidemia na cidade e os habitantes a abandonam.
Quando estoura a Guerra de 1812 o lugar é repovoado como uma sede de prisioneiros; então a Prisão Silent Hill(um dos locais do segundo jogo) é construída. Muitas pessoas morreram nessa terra e por causa dos pensamentos e sentimentos dos prisioneiros a energia já pouco branda da cidade foi gradualmente fortificada e distorcida.
Uma nova epidemia ocorre e oHospital Brookhavené construído para contê-la.
Por volta de 1840 a Prisão Silent Hill é fechada e sobre esse terreno é construída a Sociedade Histórica de Silent Hill, que reúne documentos e obras de artes da origem da cidade.
Em 1862 o campo de prisão Toluca foi construído para prisioneiros de guerra. Entre 1865 e 1866 é o ponto máximo da Guerra Civil e o Campo de prisão é transformado na Prisão Toluca.
Em torno de 1890 não há mais nenhum nativo americano por ali, pois décadas antes eles passaram a ser forçosamente retirados de lá.
Em Silent Hill, pessoas começam a desaparecer.
No começo do Século XX a Prisão Toluca é fechada e a mina de carvão Wiltse que enriquecia o local pega fogo misteriosamente. Com isso, Silent Hill se torna uma cidade turística em decadência. Em Novembro de 1918, num dia nublado, um barco chamado Pequena Baronesa desaparece no lago e, desde então, nunca mais se teve pistas nem da embarcação, nem dos catorze tripulantes e turistas.
A partir de 1939, estranhos incidentes ocorreram no Lago Toluca e algumas pessoas diziam ver mãos esqueléticas saindo da água para tentar agarrar os barcos que passavam. Durante uma data desconhecida, o prefeito de Silent Hill morre de repente e os integrantes da equipe de desenvolvimento turístico da cidade morrem um a um, em acidentes.
A base do Silent Hill 1
É aqui que enfatizo... SPOILERS. SPOILERS. SPOILERS. MUITOS, MUITOS SPOILERS.
Não se intimidou? Ótimo, pois essa é possivelmente a parte mais interessante da postagem.
Sabemos que antes de Silent Hill ser colonizada os nativos veneravam um Deus. Segundo o mito, as pessoas viviam em enterna tristeza, eram imortais e não tinham noção do tempo. Então um homem e uma mulher fizeram um pedido e O Deus foi criado, dando a eles noção de tempo e tornando-os mortais. Esse Deus era conhecido como "deus do paraíso", “the sun God”, “Lord of Serpents and Reeds”, “The Crimson One”, ou mais precisamente, Xuchilpaba ou Xuchilbara. Devido às interferências dos colonizadores seu nome foi trocado de para Samael (segundo o documento About syncretic religions, presente no terceiro jogo). Muitos podem chamá-lo de demônio, outros de Deus, mas como Vincent disse uma vez: o nome que se dá não é importante. O importante é que apenas Ele pode acabar com o sofrimento humano.
Além de transformar o mundo no que é hoje, Samael também criou outros deuses e anjos. Alguns deles foram apresentados no terceiro jogo, como por exemplo o Red God, que possuía uma pirâmide rubra no lugar da cabeça (lembrou de alguém?) e o deus Lobsel Vith, the Yellow God.
Essa tribo também possuía sacrifícios humanos, uma cerimônia vermelha de sangue e uma cerimônia amarela de cremação, um para cada deus. Tais deuses e anjos têm apenas um propósito: ressuscitar Deus através de seus adoradores.
The Order (o culto baseado na antiga religião dos nativos) criou várias ramificações, cada uma adorando um dos deuses menores e, é claro, o deus Chefe, Samael. Apenas 3 foram apresentadas até o momento, são elas:
Sect of the Holy Woman: que adorava o yellow God, Lobsel Vith. Essa ramificação acreditava que ressuscitaria Deus através das chamas. Dahlia (Silent Hill 1) fazia parte desta ramificação.
Sect of the Holy Mother: que adorava o red God. Essa ramificação acreditava que ressuscitaria Deus através do sangue.Kurt Cobain Walter Sullivan (Silent Hill 4) fazia parte desta ramificação. Walter o via como "a grande mãe", e na minha opinião, embora seja uma história meio que "independente" da cidade, é o estopim de tristeza da série.
Sect of Valtiel: que adorava o anjo Valtiel/Metatron. Essa ramificação apenas ajudava as outras nas suas tentativas de ressuscitar Deus, atuando apenas como mediadores. Vincent (Silent Hill 3) fazia parte desta ramificação.
God ou Incubus são as personificações dos desejos da The Order para purificar o mundo, trazendo o "paraíso à terra", e para isso o Deus precisava vir ao mundo terreno.
Dahlia Gillespie, uma espécie de líder do culto, junto a outros seguidores, decidiu fazer o ritual que traria Samael, à vida. O ritual necessitava de uma mulher que pudesse gerar o embrião de Samael no corpo até seu nascimento, sendo alimentado por ódio e sofrimento que seriam incubados no âmago (da mulher). Alessa, filha de Dahlia, foi eleita. Ela era uma menina problemática em meios sociais, como fica explícito no primeiro jogo quando Harry adentra a escola onde ela estudou, e com certos poderes paranormais.
No início a garota estava de acordo, mas posteriormente mudou de ideia e o ritual seguiria contra a sua vontade. O culto a queimou viva numa casa de modo a fazê-la sofrer e alimentar o embrião. Isso levou Alessa a necessitar de cuidados enquanto se recuparava, e obviamente não havia a possibilidade de mantê-la num hospial convencional, devido ao teor criminoso da coisa. Foi quando Dahlia conseguiu apoio de Michael Kaufmann, um médico e traficante de drogas.
Por que Kaufmann entrou na jogada? Segundo documentos encontrados na delegacia, em Silent Hill 1, havia uma séria investigação sobre o tráfico de drogas nas redondezas. Dahlia simplesmente matou todos os investigadores com magia negra. Em troca, Kaufmann lhe deu abrigo no porão do hospital.
Alessa, que até então estava no hospital e em sofrimento constante, mudou de idéia quanto ao paraíso que estava sendo prometido e resolveu evitar o nascimento de Samael. Então ela dividiu sua alma e a alma de Samael em duas metades, gerando Cheryl, de modo que o nascimento de Samael apenas ocorreria se as duas fossem reunidas. Cheryl apareceu numa beira de estrada quando um homem chamado Harry Mason e sua esposa doente acharam o bebê e o adotaram.
Como Alessa não era um paciente qualquer, uma única enfermeira foi obrigada a cuidar dela. Ela se chamava Lisa Garland. Kaufmann a viciou com suas drogas para mantê-la sobre controle e para garantir que não abriria a boca para autoridades. Lisa logo começou a apresentar depressão e outros problemas, grande parte devido às anormalidades que ela presenciava, causadas pela presença de Samael em Alessa.
Sete longos anos se passaram e Cheryl cresceu, enquanto Dahlia procurava por ela e Alessa era mantida viva pelo demônio e Lisa. A esposa de Harry havia falecido. Harry e Cheryl saíram de viagem por Silent Hill. É aí que começa o jogo, quando Alessa percebe a aproximação de Cheryl e tenta impedi-los de chegar à cidade se pondo à frente do carro. Obviamente não dá certo e Harry perde o controle, derrubando o carro pelo morro...
Sabe-se que até agora a figura não conseguiu despertar para este mundo com todo o seu poder, atente que em Silent Hill 1 o ritual é feito ás pressas, sem os cuidados necessários, em Silent Hill 3 quem origina a "deusa" não é o hospedeiro indicado. Por isso há razões para acreditar que quando a The Order conseguir trazer God para este mundo será o fim de tudo o que conhecemos.
Cidade turística?
Interessante como Silent Hill, de acordo com a história básica desde sua colonização acima, era uma cidade turística. Isso chama atenção ao fato evidenciado pelo blog Ironiaq:
...Imagine que Silent Hill é a sua pasárgada ou arcádia; lá é um lugar para suas memórias, uma cidade turística que apenas você pode entrar. O "mundo alternativo" representa, simbolicamente seu interior, sua mente. É para lá que você vai quando se sente com medo, quando se sente impotente para realizar alguma coisa ou tomar decisões; é lá que você vai procurar respostas, ou no caso, problemas. É o que explica o fato de TODOS os personagens nos jogos terem sido “chamados” para Silent Hill. Eles estavam com um "peso" maior do que podiam suportar...
Mas nem em seu próprio interior você estaria salvo, muito pelo contrário! Uma hora teria que enfrentar seus problemas, não é? Você estará metaforicamente no "mundo alternativo" quando quando deixar seus problemas te dominarem, quando passar de estado emocional passivo para um agressivo, desesperado, temeroso. O problema é que, devido a todo o fortíssimo teor problemático da cidade intimamente vinculado com o sobrenatural, não é numa metáfora que os felizardos que lá estão irão ao "mundo alternativo"; sendo uma cidade turística e tão densa em questão de energias distorcidas, ela leva as pessoas literalmente para dentro de suas mentes...
Além de acoplar elementos do protagonista em questão, há muito influência de Alessa no "mundo alternativo", principalmente no primeiro e terceiro jogo. No primeiro, pode-se considerar o mundo alternativo fruto da mente atormentada de Alessa, sendo oriundo de seu sofrimento e dos poderes de Samael. Por isso é tão cheio de corpos amarrados iguais a Alessa no hospital, cadeiras de rodas, que é como a Alessa era levada de um lado ao outro, e de ventiladores e sirenes. Por que ventiladores e sirenes? Fique preso anos numa sala com o zum-zum-zum de um ventilador de circulação e sirenes de hospital e tente não ficar de saco cheio deles... Outra criatura comum são as baratas, chamadas de “Creepers”, que são manifestações do medo de Alessa por insetos.
Conclusão
Silent Hill é realmente uma obra fascinante. Infelizmente não falei nem da metade do que pretendia hoje, mas estou formulando este post há pelo menos seis horas, e digamos que minha mente está se deteriorando. Me limitei a apresentar o básico do primeiro jogo, mas no futuro pretendo falar sobre os outros, também - especial o quarto, meu favorito depois do primeiro!
Passamos semana por uma Sexta-feira 13 na última semana, e por conta de minha maldita vida acadêmica fiquei sem tempo para postar algo sobre aqui no blog. Antes tarde do que nunca, trago neste Domingo - além de informações básicas sobre Sextas-feiras 13 - uma compilação reunindo estranhos eventos ocorridos nesse dia. Tudo citado abaixo, a incluir os eventos ocorridos, são informações e fatos verídicos que nos fazem pensar se há realmente algo além de surperstição envolvendo essa data tão estigmatizada.
O número do azar
A Sexta-feira no dia 13 de qualquer mês é considerada popularmente como um dia de azar, também porque o número 13 é considerado de má sorte.
Na numerologia o número 12 é considerado de algo completo, como por exemplo: 12 meses no ano, 12 tribos de Israel, 12 apóstolos de Jesus ou 12 constelações do Zodíaco.
Já o 13 é considerado um número irregular, sinal de infortúnio.
A Sexta-feirs foi o dia em que Jesus foi crucificado e também é considerado um dia de azar.
Somando o dia da semana de azar (sexta) com o número de azar (13) tem-se, segundo as crinças e superstições, o mais azarado dos dias.
Note-se também que, no Tarô, a carta de número 13 representa a Morte.
As lendas
A superstição foi relatada em diversas culturas remontadas muito antes de Cristo.
Existem histórias remontadas também pela mitologia nórdica.
Na primeira delas, conta-se que houve um banquete e 12 deuses foram convidados.
Loki, espírito do mal e da discórdia, apareceu sem ser chamado, sendo o 13º membro, e armou uma briga que terminou com a morte de Balder, o favorito dos deuses.
Há também quem acredite que convidar 13 pessoas para um jantar é uma desgraça, simplesmente porque os conjuntos de mesa são constituídos, regra geral, por 12 copos, 12 talheres e 12 pratos.
Segundo outra versão, a deusa do amor e da beleza era Friga (que deu origem a frigadag, Sexta-feira).
Quando as tribos nórdicas e alemãs se converteram ao cristianismo, Friga foi transformada em bruxa.
Outra possibilidade para esta crença está no fato de que Jesus Cristo provavelmente foi morto numa Sexta-feira 13, uma vez que a Páscoa judaica é celebrada no dia 14 do mês de Nissan, no calendário hebraico.
Recorda-se ainda que na Santa Ceia sentaram-se à mesa treze pessoas, sendo que duas delas, Jesus e Judas Iscariotes morreram em seguida, por mortes trágicas; Jesus por crucificação e Judas provavelmente por suicídio.
Os Gatos Pretos
Os Gatos pretos são gatos domésticos com pelagem de cor escura, muito associado à crenças e superstições.
Na Idade Média, acreditava-se que os gatos pretos eram bruxas transformadas em animais, por isso existe a tradição que diz que cruzar com um gato preto é sinal de azar porém, em outras culturas os gatos dessa cor são reverenciados, e significam sorte.
Na Pérsia antiga havia a crença de que quando se maltratava um gato preto, era a mesma coisa que maltratar um espírito amigo, criado especialmente para fazer companhia ao homem durante sua passagem na Terra.
Mas foi mesmo na Idade Média que surgiu a superstição de que os gatos de cor preta davam azar, muito devido aos seus hábitos noturnos, e também pela cor negra, que geralmente é associado às trevas, magia negra e ao diabo.
No século XV, o papa Inocêncio VIII chegou a incluir os gatos pretos na lista de seres hereges perseguidos pela Inquisição, por serem acusados de estarem associados a maus espíritos e por isso, muitos acabavam sendo queimados juntamente com as pessoas acusadas de bruxaria.
É muito comum ouvir histórias de sorte e azar associadas aos gatos pretos, e são um dos símbolos da sexta feira 13.
Os gatos pretos também foram muito referenciados na cultura popular, além de serem citado em textos e filmes de suspense e terror, e um dos contos mais populares é “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, onde ele responsabiliza o felino por uma série de acontecimentos sobrenaturais.
Observa-se que ocorrem muitos maus tratos à Gatos Pretos, principalmente em Sextas-feiras 13, devido à ignorância de pessoas que associam esses inocentes animais à magia negra.
É sempre importante lembrar que maus tratos à animais é algo repugnante e quem o fizer deve ser esfolado vivo sem jamais padecer por uma eternidade mergulhado num mar de ácido.
Eventos bizarros ocorridos em Sextas-feiras 13
- Com relação à Sextas-feiras, diversas culturas a consideram como dia de mau agouro: a morte de Cristo aconteceu em uma Sexta-feira. Marinheiros ingleses não gostam de zarpar seus navios à Sextas-feiras.
- O pior incêndio de florestas na história da Austrália ocorreu em uma Sexta-feiras 13 de 1939, onde aproximadamente 20 mil quilômetros de terra foram queimados e 71 pessoas morreram.
- A queda do avião que levava a equipe uruguaia de rúgbi nos Andes foi em uma Sexta-feira 13 de 1972.
Os acontecimentos neste acidente deram origem ao livro Sobreviventes: a Tragédia dos Andes, de Piers Paul Read, e ao filme Sobreviventes dos Andes (1976).
- Marinheiros têm um receio especial com relação às Sextas-feiras 13, evitando sair ao mar e até mesmo embarcar em seus navios com medo de desgraças e tragédias que possam acontecer.
No século XVIII, a Marinha Britânica comissionou um navio chamado H.M.S. Friday com a intenção de suprimir a superstição.
A marinha selecionou a tripulação em uma Sexta-feira, lançou o navio em uma Sexta-feira e até escolheu um homem chamado James Friday para ser o capitão do navio.
E assim, em uma manhã de Sexta-feira 13, o navio partiu em sua primeira viagem - e desapareceu para sempre, nunca mais sendo encontrado!
- Em 13 de Outubro de 1307 dirigentes do rei Filipe IV da França invadiram as casas dos Cavaleiros Templários, que eram monges guerreiros durante as Cruzadas, aprisionando milhares de homens sob a acusação de atividades ilegais. Nenhuma dessas acusações foi provada, mas centenas deles sofreram tortura excruciante sob a intenção de forçar confissões, e mais de cem morreram.
- Em 13 de Agosto de 1521 o conquistador Hernán Cortés capturou Cuauhtémoc, o governante de Tenochtitlán, e alegou que a cidade agora era da Espanha, marcando o fim do Império Asteca. Cortés se nomeou o novo governante e rebatizou a cidade de Cidade do México.
- Em 13 de Setembro de 1940 Cinco bombas alemãs atingiram o Palácio de Buckingham e destruíram a Capela do Palácio.
- Em 13 de Junho de 1952 o avião militar sueco DC-3, carregando uma tripulação de oito pessoas, desapareceu nas águas internacionais do Mar Báltico.
O caso ficou conhecido como “Caso Catalina” porque um dos dois aviões de emergência Catalina enviados para procurar o DC-3 foi atacado por forças soviéticas. Em 1991, a força aérea soviética admitiu ter derrubado o DC-3 naquela Sexta-feira 13.
O primeiro autor tratado na nossa série de posts quinzenais que aborda personalidades do mundo sombrio foi o extremamente popular e conceituado Edgar Allan Poe. Hoje falaremos de um homem que infelizmente poucos conhecem, mas que tem obras valiosíssimas cujas quais todos que se dizem amantes da literatura devem ler - especialmente quem tem inclinação para o macabro. Maupassant não era especificamente um escritor do gênero extraordinário (extraordinário cotidiano talvez), mas seus textos em grande parte carregam sordidez o suficiente para assim serem classificados.
Infelizmente o post de hoje será mais curto em relação ao primeiro por não haver tanta coisa que eu saiba a respeito de Maupassant e tampouco fontes que informem fatos inebriantes a respeito de sua pessoa - tal como a misteriosa morte de Poe ou o mistério das três rosas (ambos tratados aqui).
Enfim, embora pouco eu saiba da figura, Maupassant é um dos meus escritores favoritos; conheço bem sua obra e só digo uma coisa a respeito dela: leiam.
Guy de Maupassant
Henri René Albert Guy de Maupassant, ou simplesmente Guy de Maupassant (5 de Agosto, 1850, Fécamp - morto em 6 de Julho, 1893 Tourville-sur-Arques) foi um escritor e poeta francês com predileção para situações psicológicas e de crítica social com técnica realista. Foi amigo do célebre escritor francês Gustave Flaubert, a quem se referia como "mestre". Um dos maiores contistas de todos os tempos, teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo francês, em companhia da mãe, uma mulher culta, depressiva, que fora abandonada por um marido infiel. Na década de 1870, ele dirigiu-se a Paris, onde se notabilizou como contista e travou relações com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turgueniev.
Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, das quais algumas se tornaram universalmente conhecidas, como Bola de sebo, O colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett, entre outras. De forma muito rápida, conquistou o coração do público francês e o de outros países. Talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.
Com uma aversão natural à sociedade, ele amava a aposentadoria, solidão e meditação. Esta vida não o impediu de fazer amigos entre as celebridades literárias de sua época, embora: Alexandre Dumas tinha um carinho paternal por ele; em Aix-les-Bains ele conheceu Hippolyte Taine e tornou-se dedicado ao filósofo e historiador. Ele viajou extensivamente à Argélia, Itália, Inglaterra, Bretanha, Sicília, Auvergne (...) e de cada viagem trouxe de volta um novo volume. Seu editor, Havard, encarregou-o de escrever mais histórias, e mesmo sob pressão Maupassant continuou a produzi-las de forma eficiente.
A riqueza e a fama bateram à sua porta, e ele teve uma profusão de casos amorosos. No entanto, a partir de 1884 a sífilis manifestou-se em seu organismo, ocasionando-lhe uma doença nervosa feita de angústias inexplicáveis, de estremecimentos e de alucinações. Algumas dessas sensações estranhas e opressivas foram registradas em contos tão célebres quanto assustadores, como O Horla e É ele. Em 1892, após terríveis sofrimentos, tentou o suicídio. Internado num manicômio, veio a morrer no ano seguinte, em estado de semidemência, com apenas 43 anos de idade.
Obra geral
Além de romances e peças de teatro, Maupassant deixou 300 contos, todos obras de grande valor. Merecem destaque, entre os mais famosos, Mademoiselle Fifi eBola de sebo. "A Pensão Tellier" e "O Horla" podem ser considerados seus contos mais significativos.
Há quem julgue Maupassant um artista de superfície, por tentar reproduzir apenas a realidade exterior, sem maior aprofundamento psicológico. Alguns de seus contos, de fato, são crônicas de época; outros, meras anedotas. Contudo, como observou um crítico, “o escritor é profundo na aparente superficialidade porque reconhece o vazio da vida de suas personagens, que buscam o prazer, mas que encontram apenas a destruição fatal”.
Um aspecto que chama atenção na obra de Maupassant é a sua variedade temática. Poucos escritores conseguem dar esta impressão de registro de totalidade da existência, de criação de um universo fecundo, múltiplo e quase inesgotável. Como um pintor impressionista, Maupassant pinta as luzes de Paris: as que reverberam no Sena, as que cintilam nos parques e as que brilham à noite nos boulevards. Luzes que envolvem as personagens nos dramas essenciais da condição humana: a paixão, o prazer, a solidão, o tédio, a morte. É o cronista da vida européia do fim dos Oitocentos, mas também um escritor de dimensão universal.
Sua saga de curtas histórias e contos
Boule de suif
Coco, coco, coco frais !
Jadis
La Main d'écorché
Le Donneur d'eau bénite
Le Mariage du lieutenant Laré
Le Papa de Simon
Les Dimanches d'un bourgeois de Paris
Suicides
Sur l'eau
Une page d'histoire inédite
Au printemps
En famille
Épaves
Histoire corse
Histoire d'un chien
Histoire d'une fille de ferme
La Femme de Paul
La Maison Tellier
Par un soir de printemps
Opinion publique
Une aventure parisienne
Une partie de campagne
Autres temps
Aux champs
Ce cochon de Morin
Clair de lune - 1
Clair de lune - 2
Confessions d'une femme
Conflits pour rire
Conte de Noël
Correspondance
En voyage
Farce normande
Fou?
Histoire vraie
L'Aveugle
L'Enfant
La Bécasse
La Bûche
La Folle
La Légende du Mont-Saint-Michel
La Peur
La Relique
La Rempailleuse
La Roche aux Guillemots
La Rouille
La Veillée
Le Gâteau
Le Lit
Le Loup
Le Pardon
Le Saut du berger
Le Testament
Le Verrou
Le Voleur
Le Baiser
Ma femme
Madame Baptiste
Mademoiselle Fifi
Magnétisme
Marroca
Menuet
Mon oncle Sosthène
Mots d'amour
Nuit de Noël
Pétition d'un viveur malgré lui
Pierrot
Rencontre
Rêves
Rouerie
Souvenir
Un bandit corse
Un coq chanta
Un drame vrai
Un fils
Un million
Un Normand
Un parricide
Un réveillon
Un vieux
Une passion
Une ruse
Une veuve
Vieux Objets
Voyage de noce
Yveline Samoris
Au bord du lit
À cheval
Apparition
Auprès d'un mort
Décoré !
Denis
Deux Amis
En mer
En voyage (1883)
Enragée ?
Humble Drame
L'Ami Joseph
L'Ami Patience
L'Âne
L'Attente
L'Aventure de Walter Schnaffs
L'Enfant
L'Homme-fille
L'Odyssée d'une fille
L'Orphelin
La Confession
La Confession de Théodule Sabot
La Farce
La Fenêtre
La Ficelle
La Main
La Martine
La Mère aux monstres
La Moustache
La Reine Hortense
La Serre
La Toux
Le Cas de Mme Luneau
Le Condamné à mort
Le Mal d'André
Le Modèle
Le Pain maudit
Le Père
Le Père Judas
Le Père Milon
Le Petit
Le Remplaçant
Le Vengeur
Les Bijoux
Les Caresses
Les Sabots
Lui?
M. Jocaste
Mademoiselle Cocotte
Miss Harriet
Mon oncle Jules
Première neige
Regret
Réveil
Saint-Antoine
Tombouctou
Un coup d'état
Un duel
Un sage
Une soirée
Une surprise
Une vendetta
Adieu
Berthe
Bombard
Coco
Châli
Découverte
Garçon, un bock !...
Idylle
L'Abandonné
L'Aveu
L'Héritage
L'Horrible
La Chambre 11
La Chevelure
La Confession
La Dot
La Mère Sauvage
La Parure
La Patronne
La Peur
Le Baptême
Le Bonheur
Le Garde
Le Gueux
Le Lit 29
Le Parapluie
Le Protecteur
Le Retour
Le Tic
Le Vieux
Lettre trouvée sur un noyé
Les Idées du colonel
Les Sœurs Rondoli
Mohammed-Fripouille
Misti
Notes d'un voyageur
Promenade
Rencontre
Rose
Solitude
Souvenirs
Tribunaux rustiques
Un fou ?
Un lâche
Une vente
Vains Conseils
Yvette
À vendre
Blanc et Bleu
Ça ira
En wagon
Fini
Imprudence
La Bête à Maît' Belhomme
La Confidence
Le Baptême (1885)
Le Moyen de Roger
Le Père Mongilet
L'Épingle
Les Bécasses
Lettre d'un fou
L'Inconnue
Mes vingt-cinq jours
Monsieur Parent
Nos Anglais
Petit Soldat
Sauvée
Toine
Un échec
Un fou
Une lettre
Amour
Au bois
Clochette
Cri d'alarme
Jour de fête
Julie Romain
La Question du latin
L'Auberge
L'Épave
L'Ermite
Le Diable
Le Fermier
Le Père Amable
Le Signe
Le Trou
Madame Parisse
Mademoiselle Perle
Misère humaine
Rosalie Prudent
Sur les chats
Un cas de divorce
Une famille
Voyage de santé
Comment on cause
Duchoux
Étrennes
L'Assassin
L'Homme de Mars
L'Ordonnance
La Baronne
La Morte La Nuit
La Porte Le Horla
Le Lapin
Le Père
Le Rosier de Madame Husson
Le Vagabond
Le Voyage du Horla
Les Rois
Madame Hermet
Moiron
Divorce
L'Infirme
Le Noyé
Les Épingles
Les 25 Francs de la supérieure
Nos lettres
Un portrait
Alexandre
Allouma
Boitelle
Hautot père et fils
L'Endormeuse
L'Épreuve
L'Ordonnance
La Main gauche
Le Masque
Le Port
Le Rendez-vous
Un soir
Le Champ d'oliviers
L'Inutile Beauté
Mouche
Qui sait ?
Après
Le Colporteur
Le Docteur Héraclius Gloss
Les Tombales
O terror da loucura
Uma coisa muito interessante em Maupassant é que contos como Le Horla e Qui sait? descrevem fenômenos aparentemente sobrenaturais mas, no entanto, muita gente vem os tratando implicitamente como sintomas das mentes perturbadas dos protagonistas; Maupassant foi fascinado pela disciplina emergente da psiquiatria, e participava assiduamente das palestras públicas de Jean-Martin Charcot entre 1885 e 1886.
Há também uma forte tendência do perturbado e perturbador flanêur evidente em muitas de suas histórias, como no belíssimo La Nuit. O que direi a seguir é uma observação pessoal que fiz e não sei se ela tem quaisquer fundamentos lógicos além de meu delírio e necessidade de identificação com Maupassant, portanto peço que você, leitor, diga em qual aspecto concorda ou discorda do meu ponto.
Antes de mais nada, para quem não sabe, o flâneur é ser que observa o mundo que o cerca de maneira real e descritiva, levando a vida para cada lugar que vê. O flâneur descreve as cidades, as ruas, os becos, o externo. Desvincula-se do particular, recrimina o privado, de forma a ver a rua como lar, refúgio e abrigo. Este sentimento flaneuriano reflete a necessidade de segurança do indivíduo, a necessidade de identificação dele para com a sociedade. A rua é seu lar, seu mundo. Ali nada é estranho ou prejudicial. Na rua se sente confortável e protegido. O flâneur do século XIX representou a angústia da Revolução Industrial.
Creio que o narrador de La Nuit é um flanêur com gosto especificamente para a noite, e heroicamente é tragado por ela no final. Trata-se da narração de uma perambulação noturna por Paris, que vai da exaltação ao pesadelo. Pouco a pouco a cidade se esvazia- luzes e cores, sinais identificadores da
noite, apagam-se. A noite torna-se ausência de vida, escuridão absoluta, um buraco negro, conduzindo
o narrador-herói à afasia e ao apagamento. Inicialmente, na abertura, temos “a narrativa passional da noite”, figura do amor e do desejo de amar, que gradativamente forma um verdadeiro sentimento passional, levando o protagonista à estranha condução do conto. Logo ele está a observar mundos reais ou imaginários? A viagem na verdade é uma aliteração de seu interior? O andarilho está morto ou vivo, afinal?! Chega a ser opressor e claustrofóbico, e é ao nos passar tal sentimento instigante que Maupassant perturba-nos como o genial escritor fantástico que é, sem fazer uso de quaisquer elementos apelativos.
Como disse o amigo Luiz Riesemberg, os contos fantásticos de Guy de Maupassant obviamente não contêm cenas sangrentas de demônios arrancando as vísceras das vítimas e coisas do tipo. Trata-se de literatura de classe, de alta qualidade, que pode até não ter nada de sobrenatural conforme a interpretação do leitor, mas que fará até mesmo o mais cético ficar em dúvida e (por que não?), sentir calafrios pela espinha.
Conheça agora!
Trago ao visitante o endereço dos maravilhosos sites Contos do Covil e Garganta da Serpente, onde você pode ler muito mais não apenas de Maupassant também de outros magníficos autores do extraordinário. Abaixo, dois contos selecionados com muito zelo com o intuito de introduzi-lo à insanidade de Guy:
Depois de jantarmos, retornamos ao convés do navio. Diante de nós, a superfície lisa do Mediterrâneo refletia uma lua tranqüila. O enorme navio sulcava as águas sob um céu semeado de estrelas, e a esteira branca que deixava para trás brincava em espumas, parecendo retorcer-se em claridades tão buliçosas, que se poderia dizer que a luz da lua estava fervendo.
Seis ou sete homens permanecíamos ali, em silenciosa admiração, enquanto viajávamos para a África distante. O capitão retomou a conversa que havíamos tido durante o jantar:
— Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas açoitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, à noite passou um navio mercante inglês, que nos viu e nos recolheu.
Então um dos presentes resolveu contestar a expressão usada pelo capitão. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que à primeira vista nos dão a impressão de haver percorrido vastos países desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de têmpera extraordinária.
— Capitão, o Sr. diz que teve medo, mas não o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensação que teve. Um homem enérgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emoção, nervosismo, ansiedade, mas medo é outra coisa.
— Discordo! Asseguro-vos que tive medo!
— Permita-me que lhe explique. Até os homens mais intrépidos podem ter medo. Mas o medo é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma desintegração da alma, um espasmo horrível do pensamento e do coração, cuja simples recordação dá estremecimentos de angústia. Mas quando se é valente, isso não ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevitável nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos fantásticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.
Eu descobri o que de fato é o medo há uns dez anos, em pleno dia. E pude experimentá-lo também no último inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei já por muitas situações, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasião, uns ladrões me deixaram como morto; na América, fui condenado à forca por motivo de rebelião; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decisões imediatamente, sem vacilar, e até mesmo sem pensar. Mas isso não é o medo.
Observem, senhores, que entre os orientais a vida não conta para nada. Logo se resignam. As noites são claras, órfãs das sombrias inquietudes que atormentam os cérebros nos países frios. No Oriente pode-se conhecer o pânico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na África.
Percorria eu as grande planícies ao sul de Ouargla. É um dos mais estranhos países do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Imaginem agora o próprio oceano convertido em areia, em meio a um furacão. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas imóveis de pó amarelo. Essas ondas desiguais são altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a ágata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lança sua chama implacável e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem proteção. Os animais se atolam até os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.
Éramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. Íamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansaço e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno que os viajantes dessas regiões perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recomeçando seu som fantástico. Os árabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:
— A morte vem para cima de nós.
De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irmão, caiu do cavalo, de bruços, mortalmente atingido pela insolação. Durante duas horas, enquanto eu procurava em vão salvá-lo, aquele tambor, sempre impossível de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ruído monótono, intermitente, inexplicável. Então senti que o medo, o verdadeiro medo, o horrível medo, me penetrava até à medula dos ossos, diante daquele cadáver querido, naquela depressão vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lançava, a duzentas léguas do povoado francês mais próximo, o dobre rápido de um inatingível tambor. Naquele dia eu compreendi o que é ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda…
— Perdão, senhor, mas o que era esse tambor? — interrompeu o capitão.
— Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ruído geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondulações das dunas, de um granizo de areia que o vento lança contra uma mata de ervas secas, pois já se notou que o fenômeno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma espécie de reflexo ampliado desse som. Mas eu só vim a saber disso mais tarde.
Agora vou lhes contar minha segunda sensação de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da França. O céu estava tão sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um camponês, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas árvores uma espécie de alarido. Por entre as copas das árvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. Às vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e da minha grossa roupa de lã.
Tínhamos que chegar à casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. Não estava muito distante, e eu me encontrava ali como caçador. Meu guia às vezes levantava os olhos e murmurava: “Que tempo triste!” Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirigíamos. O pai havia matado um caçador furtivo, dois anos antes, e desde então andava preocupado, como que atormentado por uma lembrança. Seus filhos, já casados, moravam com ele.
A escuridão era profunda, e eu não via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as árvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres lá dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: “Quem está aí?” Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.
A cena que vimos é impossível de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de pé no meio da cozinha, tendo na mão uma espingarda carregada. Dois rapazes com pedaços de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presença ali, e então o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomodações. As duas mulheres continuavam imóveis, então ele me explicou: “Há exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltará novamente. Por isso estamos todos intranqüilos”.
Procurei tranqüilizá-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espetáculo de terror supersticioso. Contei algumas histórias, e acabei por acalmá-los quase por completo.
Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego — um desses cães que nos lembram alguma pessoa conhecida — dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta açoitava a choupana. Por uma estreita vidraça eu via passar, projetadas por grandes relâmpagos, as sombras de árvores agitadas pelo vento. Apesar dos meus esforços, aquela gente estava dominada por um terror profundo. Cada vez que eu parava de falar, todos os ouvidos estavam atentos ao menor ruído. Cansado desses temores imbecis, eu já ia recolher-me quando o velho pulou da cadeira e pegou de novo a espingarda, balbuciando com voz trêmula: “Aí está! Aí está! Já o estou ouvindo!”
As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. Já ia eu tentar novamente tranqüilizá-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabeça, esticou o pescoço, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lançou um desses ganidos lúgubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora imóvel sobre as patas, como obcecado por uma visão. O cão se pôs a ganir frente a algo invisível, desconhecido, espantoso sem dúvida, pois todo seu pelo estava eriçado. Lívido, o guarda gritou: “Ele o está farejando! Está farejando! Ele estava exatamente aí, quando o matei!”
As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A visão do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horrível. Durante uma meia hora o cão ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de quê? Lá sei eu. Era medo, pura e simplesmente.
Permanecemos imóveis, lívidos, à espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o coração agitado, transtornados ao menor ruído. O cachorro se pôs a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Então o meu guia se lançou sobre ele, numa espécie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de trás, que dava para uma espécie de cercado, e o lançou para fora da casa.
O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num silêncio ainda mais terrível. De repente, todos tivemos uma espécie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em direção ao bosque. Depois passou junto à porta, que pareceu apalpar com mãos trêmulas. Novo silêncio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, roçando sempre a parede, como uma criança com suas unhas. Subitamente apareceu junto à vidraça uma cabeça branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido — um murmúrio como de quem se lamenta.
Nesse momento se ouviu um ruído formidável. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidraça, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estrépito do inesperado disparo, senti tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali até o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ninguém se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.
Ao lado do muro, junto à porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia saído do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto à porta.
Naquela noite eu não corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terríveis que já enfrentei, para não ter de viver aquele único minuto em que o tiro foi disparado na cabeça que surgiu na vidraça.
Eu amo a noite com paixão. Amo como se ama o seu país ou sua amante, um amor instintivo, profundo, invencível. Eu a amo com todos os meus sentidos, com meus olhos que veem, com o meu nariz que respira, com os meus ouvidos que escutam o silêncio e as trevas que minha carne acaricia. As cotovias cantam ao sol, no céu azul, com ar quente, na suave brisa das manhãs de luz. A coruja voa durante a noite neste mesmo lugar, o negro que passa através do espaço escuro e encantador, embriagado pela imensidão sombria ela pia de forma vibrante e sinistra.
Durante a claridade do dia fico cansado, entediado. As manhãs são duras e barulhentas. Me levanto com dificuldades, visto-me devagar, saio todo molenga, pois cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento me cansa como se levantasse um peso opressor.
Porém quando o sol se põe, surge-me uma alegria confusa, uma satisfação que anima todo meu corpo. Eu desperto, fico motivado. Quando as sombras surgem sinto-me diferente, mais jovem, mais forte, mais alerta, mais feliz. Eu contemplo a penumbra ficar cada vez mais densa, a grande sombra cair suavemente do céu: ela afoga a cidade, como uma onda fugaz e incompreensível, ela esconde, apaga, destrói a cor, deforma, oculta as pessoas, casas, e os monumentos com seu toque imperceptível.
Então, eu quero gritar de prazer como as corujas, correr sobre os telhados como os gatos, explosões dilatam meu corpo, um desejo de amar incontrolável se acende nas minhas veias. Eu então saio, seguindo sem rumo às vezes, nos escuros subúrbios, ou então no bosque perto de Paris, onde eu ouço meus noturnos irmãos animais vagando e caçando meus semelhantes.
Aquilo que você ama com violência sempre acaba te matando. Mas como explicar isto que está acontecendo comigo? Ou como posso explicar aquilo que vivo? Eu não sei bem, já não sei mais, só sei que é real. Só isso! Aconteceu ontem; foi ontem? Sim, provavelmente, talvez tenha ocorrido anteontem, ou dias atrás, quem sabe num outro mês, ou alguns anos antes... Não sei. Mas deve ter sido ontem porque o sol não voltou a aparecer e o dia nunca mais raiou. Quanto dura uma noite? Qual é sua intensidade? Alguém saberá dizer? Alguém conhece?
Foi então ontem, eu saí como faço todas as noites depois do jantar. O tempo estava muito bonito, muito suave, muito quente. Segui até os Bulevares olhando, sobre a minha cabeça, um rio preto cheio de estrelas correndo no céu além dos telhados das ruas, como se as telhas das casas demarcassem as margens daquele rio torrencial de estrelas. Tudo estava claro, como um ar leve, dês da luz dos planetas até as lâmpadas a gás. Então, muitas luzes brilhavam lá em cima e na cidade que parecia um foco de luz na escuridão. As noites são brilhantes e felizes, como os grandes dias de sol.
No Bulevar os cafés eram sorvidos por pessoas noturnas, eles riam, pediam mais café e bebiam. Entrei no teatro, por alguns instantes, mas em qual teatro? Não sei. Estava tão claro que me desanimou então eu fugi com o coração ofuscado pelo choque de luz douradas das sacadas, pelo lustres de cristais cintilantes falsos e enormes, pela cortina de fogo da ribalta, pela melancolia da claridade falsa e crua. Cheguei ao Champs-Elysees, onde os cafés-concertos pareciam incêndios entre as folhas.
As castanheiras friccionavam uma luz amarela, elas pareciam pintada como árvores fosforescentes. As luzes elétricas assemelhavam-se as luas brilhantes e pálidas, eram ovos de lua caídas do céu, pérolas monstruosas, vivas, lívidas com seus bicos de gás encarnado, misteriosa e real, com gás sujo e desagradável, como guirlandas de vidros coloridos. Parei em baixo do Arco do Triunfo e olhei para a avenida, a longa e maravilhosa avenida estrelada, seguindo até Paris entre duas linhas de fogo, e vários Sois! Os astros lá em cima, estranhos astros jogados aleatoriamente na vastidão desenhando figuras adversas, formatos que nos fazem sonhar, que nos fazem pensar tanto. Entrei no Bois de Boulogne e fiquei lá demoradamente, por muito tempo. Um tremor apoderou-se de mim, uma emoção estranha, inesperada, poderosa, era alguma exaltação do meu cogitar que beirava a insanidade.
Andei um longo, longo tempo. Depois voltei.
Que horas eram quando tornei a passar sob o Arco do Triunfo? Também não sabia. A cidade dormia, em nuvens, grandes nuvens escuras que se alastravam lentamente pelo céu. Pela primeira vez eu senti que algo singular, novo, iria acontecer. Tive a impressão que estava frio, um ar mais denso cresceu, naquela noite, minha noite mais amada, meu coração ficou pesado. A avenida estava deserta agora. Apenas dois policiais caminhavam na direção dos táxis. Na rua, mal iluminada pelos lampiões a gás que pareciam apagar, seguiam uma fila de carroças de legumes indo para Les Halles.
Elas eram puxadas lentamente, carregadas com cenouras, nabos e repolhos. Os cocheiros dormiam, invisíveis. Os cavalos andavam no mesmo ritmo, seguindo a carroça da frente, em silêncio pela calçada de madeira. Diante das luzes da calçada eram iluminadas de vermelho as cenouras, de branco os nabos, de verde claro os repolhos. Carruagens que passavam uma após a outra, com mercadorias brilhantes, uma tinha um rubro flamejante como fogo, cintilante semelhante prata e a seguinte esverdeada igual à esmeralda. Segui elas, quando virei na rua Royale e voltei para os Bulevares. Ninguém, nenhum café iluminado, apenas alguns atrasados marchando tardiamente. Eu nunca tinha visto Paris tão morta como um deserto. Peguei meu relógio. Eram duas horas.
Uma força me empurrava, era uma necessidade de andar. Então eu fui para a Bastilha. Lá percebi que eu nunca tinha visto uma noite tão escura assim, porque não conseguia distinguir a Colonne de Juillet, cuja engenharia de ouro estava perdida na escuridão impenetrável. Um cobertor de nuvens, grossas como a imensidão, afogando as estrelas e parecia descer à Terra para destruí-la.
Voltei. Não havia ninguém ao meu redor. Porém, na praça Du Chateau d'Eau, um bêbado quase me bateu e depois desapareceu. Eu ouvi por algum tempo seus passos sonoros e irregulares. Eu continuei seguindo. Próximo do Faubourg Montmartre passou um táxi descendo na direção do Sena. Eu chamei. O motorista não respondeu. Uma mulher estava perambulando perto da Rue Drouot:
- Cavalheiro, escute.
Apertei meus passos para evitar a sua mão estendida. Daí então, mais nada. Na frente do Vaudeville um catador de trecos vasculhava a sarjeta. Sua pequena lanterna iluminava fracamente o chão.
- Que horas são, amigo? perguntei.
- Como vou saber, não tenho relógio!- ele falou entre os dentes.
Foi então que eu percebi, de repente, que as luminárias de gás estavam desligadas. Sei que nesta estação do ano elas são apagadas mais cedo, antes de amanhecer para economizar energia. Porém o dia ainda estava longe, muito longe de raiar.
- Vamos para Les Halles, pensei, pelo menos lá irei encontrar vida.
Segui meu caminho, mas eu não conseguia ver nada para me orientar. Caminhei lentamente, como se estivesse numa floresta densa, tateando as ruas para desvendá-las. Próximo do Credit Lyonnais um cão rosnou. Entrei na Rue de Grammont e me perdi, vaguei então sem rumo, quando reconheci a Bolsa pelas grades de ferro que a rodeavam.
Toda Paris dormia, um sono profundo, assustador. Ao longe, no entanto, vi novamente um táxi, talvez tenha sido o mesmo que passou por mim mais cedo. Tentei alcançá-lo, seguindo o som das suas rodas, pelas ruas desertas e enegrecidas, negra, negra como a morte. Eu o perdi novamente. Onde eu estava? Quem seria tão tolo para desligar o gás tão cedo! Ninguém mais vi na cidade, nenhum andarilho atrasado, nenhum vagabundo, nenhum gato miando para sua felina. Nada.
Onde estavam os policiais? Então eu disse: "Vou gritar, assim eles virão." Me lamentei. Porque ninguém respondeu. Berrei mais alto. Minha voz se propagou no espaço, sem eco, diminuindo abafada, esmagada pela noite, pela noite impenetrável.
- Socorro! Socorro! – Gritei.
Meu apelo desesperado ficou sem resposta. A que horas foi isso? Tentei olhar para meu relógio, porém eu não tinha fósforos. Eu ouvia o tique-taque da pequena caixa de engrenagens mecânica com uma bizarra e desconhecida alegria. Ele parecia viver. Eu não me sentia tão sozinho. Que mistério! Eu voltei a andar como um cego, sentindo as paredes com minha bengala, onde todo momento voltava meus olhos para o céu, esperando o dia raiar e finalmente a luz aparecer, mas o espaço estava soturnamente revolto, todo negro, a escuridão tinha tamanha profundidade que não havia mais cidade.
Que horas poderiam ser? Eu andava, parecia aquele momento uma eternidade, porque minhas pernas involuntariamente curvavam-se abaixo de mim, meu peito arfava e eu sofri terrivelmente com fome. Decidi tocar a campainha da primeira casa que eu esbarrasse. Eu puxei a maçaneta de bronze da porta, toquei o sino da campainha, ele soava estranhamente como se estivesse vibrando sozinho na casa. Eu esperei sem respostas, ninguém abriu a porta. Toquei novamente, esperei mais uma vez. Nada!
Eu sentia medo! Corri para a próxima casa, e por vinte vezes naquela calçada eu fiz soar a campainha num corredor escuro onde deveria estar dormindo algum porteiro. Mas ele não acordou, então eu foi mais longe, puxando com toda a minha insistência os sinos, chutando com meus pés, batia minha bengala nas portas, no entanto permaneceram fechadas.
De repente percebi que estava chegando ao Halles. Os mercados estavam desertos, sem murmúrio, sem um único movimento, sem uma carroça, sem uma alma sequer, na havia nenhum banca de legumes ou flores. Tudo ali estava vazio, imóvel, abandonado, morto!
Um pânico se apoderou de mim, algo terrível. O que estava acontecendo? Oh meu Deus! O que estava acontecendo?
Eu parti. Mas que hora? A hora! Quem me indicaria o tempo? Nenhum relógio, nenhuma badalada soou nos sinos dos monumentos.
- Vou abrir o vidro do meu relógio e sentir os ponteiros com os dedos. pensei. Peguei meu relógio... ele não trabalhava mais... estava parado. Nada! Nada mais, além de um frio na cidade, eu não percebia nenhum chiado, nenhum ruído se propagava pelo ar. Nada! Nada mesmo! Nenhum único som das rodas de um distante carro. Absolutamente nada!
Eu estava no cais, e uma brisa gélida saia do rio. O Sena corria ainda? Eu agora queria saber, encontrei as escadas, desci... Eu não conseguia ouvir o borbulhar do fluxo das águas nas colunas da ponte... desci mais um pouco... senti a areia... depois a lama... então a água... Mergulhei meu braço... corria... sim o rio ainda corria... Frio... Frio... Frio... quase congelado... quase seco... quase morto. Eu senti que não conseguiria ter forças para recuar... e que o rio iria desfalecer ali... Eu também, de fome, de cansaço, de frio.